sexta-feira, 15 de junho de 2018

A escola e o bairro: resíduos irredutíveis à globalização

Jornal Cruzeiro do Sul
Marcio Fernando Gomes

Este artigo versa sobre a relação entre a escola e o bairro, a escola e a comunidade do entorno da escola, a partir dos anos 70 do século XX, num contexto de expansão do tecido urbano metropolitano de Sorocaba, do processo de urbanização e industrialização brasileira, sobretudo das regiões metropolitanas em condições da globalização. A relação entre a escola e o bairro nos remeteu a pensá-la a partir de uma abordagem conceitual da educação tecnicista e tecnológica sob orientação neoliberal e do bairro numa concepção da produção social do espaço num contexto de reprodução capitalista da sociedade.

A construção teórica surge das práticas educativas dialógicas de ensino-aprendizagem vivenciadas no projeto de iniciação à docência, o Subprojeto da Licenciatura em Geografia do PIBID-UFSCar, desenvolvido na E. E. Prof.ª Selma Maria Martins Cunha, do Jardim Tatiana, do município de Votorantim, no período entre março de 2014 a fevereiro de 2018.

A escola de educação básica numa parceria colaborativa com a universidade, por meio de um programa que procura valorizar o princípio educativo que relaciona ensino, pesquisa e extensão torna-se um novo território de ensino-aprendizagem e de formação docente tanto dos licenciandos em sua formação inicial, quanto dos professores da escola básica em sua formação continuada, no qual o licenciando numa parceria colaborativa com o professor da escola supera sua condição de observador e torna-se colaborador tanto na concepção e no planejamento, quanto nas práticas dialógicas de ensino-aprendizagem.

A proposta teórico-metodológica do estudo do meio e o trabalho de campo no entorno da escola, numa concepção freireana, procura não apenas privilegiar a execução das práticas dialógicas de ensino-aprendizagem na sala de aula da própria escola e, em outros territórios da escola, mas, que elas possam o ocorrer para além dos muros da escola, ou seja, transformar o bairro em sala de aula, pois a proposta é transformar a escola de educação básica num território de estreita relação com a comunidade do entorno, na perspectiva de tornar o ensino-aprendizagem dos próprios estudantes da escola mais significativo, dialógico e valorativo das relações familiares e de bairros. Promove o diálogo entre o conteúdo curricular formal e os conteúdos das vivências tanto do professor em formação inicial e continuada, quanto do estudante da escola. Faz-se necessário, reciprocamente, o reconhecimento do Outro.

Por fim, cada vez mais se afirma o distanciamento do sentido comunitário e de pertencimento natural dos sujeitos à comunidade de origem, vai se configurando, inicialmente, a partir da modernidade e, encontra o seu ápice na globalização, na qual a sociedade global torna-se cada vez mais informacional, que valoriza o sentido individual e reforça os sentimentos solitários e, nas metrópoles vivem numa multidão de isolados. No entanto, há esperanças num mundo solidário, porque são possíveis uma outra globalização e uma outra pedagogia, tanto Milton Santos, quanto Paulo Freire nos conduz a uma nova Utopia, ou seja, pensar possibilidades de resistência; para Santos, por meio da construção de uma consciência universal baseada em relações solidárias de se construir uma outra globalização, assentada em novos espaços de esperança e; para o Freire, por meio da pedagogia da autonomia, por uma nova rebeldia ética da solidariedade humana. E o PIBID, que assegure práticas dialógicas de ensino-aprendizagem autônomas e as escolas na sua imbricação com o bairro transformadas em comunidades de aprendizagens podem ser um território de esperança, resíduos irredutíveis à fábula e perversidade da globalização.

Prof. Dr. Marcio Fernando Gomes é docente do Departamento de Geografia, Turismo e Humanidades da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar-DGTH) - marciogomes@ufscar.br

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