domingo, 28 de fevereiro de 2010

Quem canta seus males espanta

José Antônio Rosa


Notícia publicada na edição de 28/02/2010 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 1 do caderno B
 
Irmã Luíza Maria organiza coral com as
 detentas da Cadeia Feminina de Votorantim
Foto: Adival B. Pinto

Está na hora! Hoje tem música!. É assim, bem disposta, que a irmã Luíza Maria anuncia às detentas da Cadeia Feminina de Votorantim sua chegada. Tem sido assim há quatro meses, às sextas-feiras.
No final do ano passado, a religiosa procurou o delegado do município, Carlos Augusto Marinho Martins, e o titular do estabelecimento, José Antonio Proença, a quem propôs realizar um projeto na unidade com o objetivo de ensinar música às reeducandas e com elas formar um coral.
Aluna do curso de Direito da Uniso, Luíza Maria pediu cadernos para anotações, xerox das partituras, CDs e um teclado. Por pouco a ideia não sai do papel. Não tínhamos, naquele momento, condições de bancar a compra de um instrumento, conta Martins.
A saída foi, então, mobilizar os próprios funcionários da repartição que se cotizaram e ajudaram a comprar o aparelho. Irmã Maria Luíza conclui um trabalho na faculdade sobre a questão carcerária e aproveitou para unir o útil ao agradável.
Irmã Luíza não gosta de comparações, mas seu jeito lembra muito a personagem de Whoopi Goldberg, em Mudança de Hábito. Pertencente ao Instituto Filhos Misericordiosos da Cruz, ela encara com seriedade o trabalho.
Ensina às presas noções de canto, solfejo (leitura das notas) e teoria musical. A estreia do coral ocorreu no Natal de 2009, com uma cantata. O resultado da experiência superou as expectativas e hoje o grupo conta com mais de 30 participantes.
A cada quinze dias, todas recebem a visita da professora que optou por praticar canções sacras e populares. Na chegada, irmã Maria Luíza posiciona o teclado na gaiola, como é chamado o espaço de pouco mais de quatro metros quadrados e, dali, conversa com as alunas.
Separadas por grades, elas falam sobre o andamento das aulas. Uma coordenadora passa a lista e confirma os nomes daquelas que vão continuar o aprendizado. Na sexta-feira, a turma sofreu baixas por conta da transferência de algumas detentas para outras cadeias.
Em Votorantim, atualmente, cerca de 140 mulheres ocupam um espaço que deveria abrigar, algo em torno de 50. E é em meio a esse desconforto, que todas encontram disposição para cantar.
A reportagem quis saber da freira como é ensinar num recinto tão limitado: Quem viveu na clausura como eu, não encontra dificuldades. Basta ter boa vontade e isso eu encontro nelas. Por isso, dá certo.
A princípio, as cantoras repassam as notas da escala. Irmã Luiza divide o grupo e pede que todas repitam o fraseado, o acorde. Olhos fixos na professora, as presas obedecem e mantém a disciplina.

No momento, ensaiam Além do Arco Íris, versão para Over The Rainbow, da trilha do Mágico de Oz. Mas cantam, também, rap. Como Kelly A. S., que conta já ter participado de programas como Ídolos, Raul Gil e Show do Tom.
Eu falo, nas minhas letras, da nossa realidade, do tratamento que recebemos, mas da esperança de seguir uma vida nova. Eu acredito que vou conseguir melhorar e voltar a ser uma pessoa melhor, disse.

Não é exatamente fácil colher depoimentos numa cadeia. Pouco à vontade, as detentas relutam em conversar e pedem desculpas pela falta de jeito. Foi o que aconteceu com Mônica A. D. P.

Sem se deixar fotografar (a não ser ao lado de outras presas) disse que gosta de música sertaneja, pagode romântico. A música abriu nossa cabeça, trouxe paz. Além disso, ajuda a espantar a tristeza. Aqui, a gente não tem o que fazer, o tempo demora a passar.

Irmã Maria Luíza não descarta a possibilidade de encontrar no grupo algum talento. Por que não? É bem provável que exista alguém com vocação. Elas aprendem rápido, são afinadas e têm muita determinação. É meio caminho andado para seguir uma carreira.

 
TV Cela
Além das aulas de música, as detentas da Cadeia Feminina de Votorantim, têm contato com outras manifestações artísticas. No local é apresentado o programa TV Cela, projeto da Associação Cultura Votorantim.
A produção foi tema de reportagem apresentada ontem pelo canal ESPN Brasil e deverá ser exibido este ano dentro do Profissão Repórter, da Rede Globo. O TV Cela está em fase de produção. Por enquanto, foram produzidos oito da série de dez programas realizados. Tão logo isso ocorra, a atração entra no ar em março, na grade de tevês comunitárias.

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