domingo, 4 de abril de 2010

Jornalistas vivem desafio na pele dos excluídos

Repórteres do Cruzeiro do Sul, após ampla reportagem sobre excluídos em Sorocaba, aceitam desafio para passar uma noite nas ruas da cidade, enfrentando o frio, o medo, a insegurança e o fantasma da solidão urbana

Passava das 22h30 quanto a equipe do Cruzeiro,
com roupas velhas, se preparou para
perambular pelo centro sorocabano
Foto: Erick Pinheiro

Matéria produzida pela Jornalista Samira Galli
 (Votorantinense) é destaque neste
domingo de Páscoa no Jornal Cruzeiro do Sul


Desafio de passar
a noite como 'excluído'

Samira Galli 


Notícia publicada na edição de 04/04/2010 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 2 do caderno D


Quando recebi a proposta do editor-chefe, Eugênio Araújo, de passar uma noite como moradora de rua, confesso que não achei nada tentadora a idéia. Naquele dia, eu fechava uma pauta que dizia que a Associação Christã de Assistência Plena (Acap) ia intensificar as ações no segmento da população de rua, junto com a Prefeitura. Era fim de tarde e, num sentimento de missão cumprida, eu achava que já estava tudo pronto, o arroz com feijão estava entregue, com um pouco de farinha para fazer volume e dar mais sabor. Engano meu. O arroz com feijão deveria ter ingredientes suficientes para ser transformado em ceia de Natal, ou melhor, num sopão feito por alguma entidade para matar a fome de marginalizados.
Sentei. Tentei não expressar nada. Era impossível. Comecei a dissecar a idéia. Imaginei-a como um desafio, gosto disso. Transformei o desafio em oportunidade, mas esbarrei nos meus limites. Senti medo e titubiei. Foi uma conversa que tive com o chefe de reportagem, Anclar Patric, que me deu coragem de enfrentar aquilo. Lembrei de uma frase que meus pais sempre me falam: ‘Coragem não é ausência de medo‘, e respondi que toparia a experiência.

O repórter fotográfico Bruno Cecim, que já estava acompanhando a pauta desde o arroz com feijão, aceitou a experiência de pronto. ‘Já definiram a data?‘. ‘Ainda não‘, disse eu, na esperança de que a coragem fosse proporcional ao tempo de espera da matéria. Entre dizer ‘sim‘ e passar a noite na rua, passaram-se pouco mais de 15 dias. A inspiração, indicada pelo próprio editor-chefe, veio da jornalista Rebeca Kritsh, que, depois de passar uma semana nas ruas de São Paulo, junto com mendigos e desabrigados, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, o Essão de reportagem de 1995.

Não pelo prêmio, mas pela coragem e experiência da jornalista, amadureci a idéia, encarei a situação de frente e pensei na melhor maneira de fazer os leitores entenderem a situação de rua. Também busquei exemplos de Ana Paula Padrão, na série “A vida na rua”, feita para a TV Record, no ano passado. Além do site www.ruasdigitais.com.br, que foi pauta da Revista Veja, por funcionar como uma mídia para moradores em situação de rua, buscando dar ‘voz’ a essas pessoas, com informações de gente desaparecida, denúncias e histórias de vida.

Planejamos o dia, os horários e a estratégia. De resto, era tudo imprevisível. Segurança era a palavra-chave, tanto para garantí-la quanto a incerteza de poder contar com ela. Parece que, quanto menos dela usufruíssemos, mais material poderia render. ‘Se acontecer alguma coisa, também vai ser matéria‘, justificava o editor, na última reunião de planejamento. Graças à ela, foi definida uma equipe para ficar quase que o tempo todo nos acompanhando. ‘Quase que o tempo todo‘, porque eles nos perdiam de vista e não poderiam dar bandeira. O repórter fotográfico Erick Pinheiro e o motorista Dorival Manfrin Junior, que além de garantirem as fotos, garantiam um certo conforto - só por saber que estavam ali - , na situação mais desconfortante que já vivi.

Depois de passar uma noite nas ruas é que consegui entender que o diferencial de contar uma história, que parece ser tão batida, está exatamente na experiência da vivência. Ou simplesmente como disse o professor de Psicologia Social Marcos Roberto Garcia, que me ajudou muito a entender esse universo das ruas: “Acho importante esse tema ‘batido’ ser muito debatido e discutido”. Na nossa conversa, percebi a importância em abordar o assunto, sob uma perspectiva diferente, que consiga prender a atenção e causar reflexão nos leitores. Antoine De Saint Exupéry diz que ‘Uma pessoa para compreender tem de se transformar”. Foi por isso que acreditei na proposta do repórter infiltrado. Passei por uma experiência transformadora. Só quem veste a roupa da exclusão e sente na pele a marginalidade da sociedade é que pode imaginar como essas pessoas se sentem. Imaginar porque, na realidade, cada um sente de uma forma diferente, cada pessoa tem a sua impressão do mundo. (Por Samira Galli)

Edição: Eugênio Araújo
Chefia de Reportagem: Anclar Patric Crippa Mendes
Diagramação: Anderson Carlos Magno
Revisão: Admir Machado
Tratamento de Imagem: Keith E. H. Kikunaga







Sem família ou laços sociais


Samira Galli



Notícia publicada na edição de 04/04/2010 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 3 do caderno D -

De longe, eles parecem todos iguais, mas os grupos que perambulam nas ruas sorocabanas à noite são bem diferentes. A única coisa comum a todas as histórias é que elas passam pela perda dos vínculos, dos afetos. Sem família nem laços sociais, eles estão nas ruas porque não tem para onde ou por que voltar.

O professor Garcia estuda a população em situação de rua há anos e acredita que ela não vai desaparecer nunca. É um fenômeno que existe em todos os paises. Tem toda uma história que está por trás dessa situação e não é uma história que vai mudar do dia para a noite, explica.

No geral, existem fenômenos que são relacionados à pobreza como um todo que não é específico de um morador de rua - , como baixa escolaridade ou uma escolaridade não adequada, acompanhada do abandono precoce da escola, dificultando a inclusão no mercado de trabalho.

Outro fator importante é que a população em situação de rua é predominantemente masculina (82%). O professor afirma que isso se deve ao fato das pressões relacionadas ao que se espera dos homens nas camadas populares, perante à sociedade. Tem que trabalhar, ter dinheiro, casar, ter filhos e prover a família. Isso não é fácil em nenhuma camada social, mas nas populares isso se acentua, ressalta. Ele diz também que a função de provedor do homem fica ainda mais abalada devido à entrada das mulheres no mercado de trabalho. Antes, as mulheres ficavam numa dependência econômica maior dos maridos, então elas tinham que aguentá-los, mesmo se não fossem bons. Hoje, juntamente com o aumento do número de divórcios e separações, acaba tendo um contingente de número de homens que fica sem esposa, sem filhos, sem trabalho, por conta destas questões todas, ressalta. Soma-se a isto, a vergonha de recorrer a família de origem, e vai-se desfazendo os vínculos. Garcia explica que os homens nessa situação perdem os vínculos familiares, tanto a de origem (pai e mãe) quanto a constituída (esposa e filhos) e não conseguem formar vínculos alternativos. Que ocorreria se ele entrasse num lugar de trabalho que fornecem uma estabilidade, comenta.

Outro fato importante para explicar as causas de uma pessoa ir morar nas ruas é a migração. O termo trecheiro- a pessoa que recorre trecho define essa população itinerante. As pessoas vão atrás de trabalho, mesmo que temporário, em diversas regiões. Esse processo de sair de casa e de mudar de lugar leva ao enfraquecimento de vínculo com a família, e dificulta em formar vínculos substitutivos. Perde os vínculos originais e não refaz novos.



Professor Marcos pesquisa a ‘população de rua
 Foto: Bruno Cecim

Para o professor, os problemas dessa população só seriam resolvidos se houvesse um trabalho que combatesse o cerne - e não cuidá-lo pode agravar ainda mais a situação . Reduzir a população de rua é prevenir que ela cresça, dar condições, inclusive econômicas, de estrutura familiar.
Ele defende que se façam políticas públicas nacionais para combater essa situação, que não deve ser deixada de lado e simplesmente ignorada como a maior parte da população faz com os próprios moradores de rua. Eles podem parecer iguais, mas não são. Também não são o avesso da população, são apenas parte dela.


'Estão no nosso caminho.
Mas escolhemos não vê-los'

Samira Galli

Notícia publicada na edição de 04/04/2010 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 2 do caderno D

A cidade a noite é um lugar vazio. Não tem trânsito, não tem correria, não tem vai-e-vém das pernas apressadas nem olhares preocupados para os relógios. Na Braguinha, não tem vendedor fazendo micagem para prender atenção de ninguém. Ao cair da noite, com o passar das horas, o movimento diminui, leva embora as pessoas, os barulhos, os sonhos, a esperança. O difícil é manter a consciência no meio de todo esse vazio, que amedronta e limita. Para preenchê-lo, a fuga está na bebida, nas drogas e na própria insanidade mental.

Aos poucos, atrás da cidade vazia, aparece uma cidade invisível. É assim que pode ser chamada a população dos moradores de rua. Eles podem estar debaixo dos nossos pés, que nem percebemos a sua presença. E, por mais que estejam no nosso caminho todos os dias, escolhemos não vê-los.
Foi assim que nos sentimos, o fotógrafo Bruno Cecim e eu, ao passar a noite nas ruas. Misturados à paisagem noturna, passamos despercebidos e praticamente sumimos em meio aos monumentos que também não são notados no cotidiano de Sorocaba. Na praça, Aluísio de Almeida divide espaço com Alan Kardec. O vento leva o jornal jogado ao chão, com outras personalidades atuais. Quem nos nota, se incomoda, mas desvia o olhar.
No Brasil todo, desviamos o olhar para cerca de 50 mil moradores de rua. Só na cidade de São Paulo, existem cerca de 10 mil pessoas que vivem nas ruas, segundo uma pesquisa nacional sobre a população de rua, publicada em 2008, pelo Ministério de Desenvolvimento Social e Combate a Fome. Em Sorocaba, são aproximadamente 100 pessoas vivendo nessa situação, de acordo com a Associação Chistã de Assistência Plena (Acap). Embora expressivo, esses dados não representam o total da população de rua. É impossível chegar ao número exato, devido a inúmeros fatores, mas principalmente por se tratar de uma população itinerante, treicheira.

Às 22h38 paramos na rodoviária. Era o ponto de partida do trecho que nós iríamos percorrer por toda a noite. Alguns ônibus ainda descarregavam passageiros e outros esperavam os últimos horários para embarcá-los. Aproveitamos o movimento para pedir dinheiro. A reação foi quase sempre a mesma. Muitos não deram e, os que deram, não nos olhavam. O professor da Universidade de São Carlos (Ufscar), mestre e doutor em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), Marcos Roberto Garcia, afirma que esse tipo de comportamento é comum na sociedade. Você pode ajudar sem formar o vínculo, explica. Ele conta que o fato das pessoas doarem o dinheiro, mas não olharem para o excluído é um fenômeno explicado na Psicologia como humilhação social. Ou seja, o ato de ajudar não é baseado no fato de que o outro tem o direito ao bem estar, a uma vida digna. É baseado na idéia de que ele é um ‘coitado, e a esmola aparece por pena. Naquela noite, me dei conta de quantas vezes já tinha feito aquilo e a situação de rua começou a me incomodar.

Durante todo o trajeto que percorremos, por todo o centro da cidade, apenas uma senhora ficou interessada na minha ‘história e quis saber o que tinha acontecido comigo. Falei que tínhamos vindo de São Paulo e não tínhamos onde dormir nem o que comer. Num misto de pena e medo, segurou a bolsa com força e falou que gastou todo o dinheiro na passagem. E, ali mesmo, na rodoviária, quase chorou para falar não.

O segurança não teve a mesma sensibilidade. Falamos com ele por etapas. Na primeira, o fotógrafo perguntou sobre o banheiro e ele informou onde ficava e que era pago. Dois minutos depois, me dirigi a ele e expliquei ‘minha situação antes de perguntar sobre o banheiro. E a resposta foi direta. O banheiro já fechou, não dá mais para usar, o pessoal está lavando. Ele não precisava ter dito nada, o sentimento de exclusão surge do olhar, não só dele, mas de todas as pessoas que ali estavam.

Sobre o abrigo, ele não esclareceu ao certo, afirmou que existia, mas não explicou como fazia para chegar lá. Queria terminar de explicar logo. Não éramos bem vindos na cidade. A melhor informação de como chegar ao albergue do Serviço de Obras Sociais (SOS) veio de um morador de rua. Tinha um carrinho de pegar materiais recicláveis. Sobrevivia de catar lixo. Conversava desconfiado e nos explicou como chegar ao abrigo a pé. Percebemos que a nossa presença também o incomodava. A solidão para eles é a melhor companhia.
Os quartos de aluguel em torno da rodoviária custam entre R$ 10 a R$ 45. Conseguimos R$ 2,45 com as esmolas. Não dava para dormir em lugar algum. Também pedimos nos estabelecimentos, ganhamos comida. Uma esfiha que havia sobrado do comércio do dia. Fiquei feliz em perceber que, se aquela fosse a minha realidade, eu não passaria fome. Mas, segundo o professor Garcia, essa impressão que tive foi apenas momentânea. Os moradores de rua podem conseguir comida algumas vezes, mas não é garantia de todo dia. É uma ajuda paliativa. A fome vai chegar, mais cedo ou mais tarde, diz. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à fome, 79,6% dos moradores de rua conseguem fazer ao menos uma refeição por dia, o restante não consegue se alimentar todos os dias. Garcia explicou que a pinga é o remédio para a fome nas ruas. O alcoolismo é uma resposta à frustração, ao frio e à fome, mas mais à fome, ressalta. Eu estava com a pinga, mas não consegui tomar, é muito forte. Apenas fiz um bochecho para conseguir ser convincente com um possível hálito de cachaça.

Era quase meia-noite quando seguimos para o centro da cidade. Na praça central, a Prefeitura lavava o chão, com a ajuda de um caminhão-pipa e de hidrantes. Tive medo de cair no piso escorregadio, mas o chinelo de borracha me segurou.

A Polícia Militar quase nos abordou por quatro vezes na madrugada. Estranharam nossa presença, tentaram nos intimidar, mas não consumaram nada. Imaginei que o fato de eu ser mulher influenciou.
Descemos a Braguinha. Marco estava sentado na marquise de uma das lojas, pediu um cigarro. Sentamos ao lado dele. Com um relógio quebrado no pulso, ele estava perdido no tempo. Perguntou que horas eram, disse que imaginava que seria cinco da manhã. Falei que não, no máximo era meia-noite e meia.
Há duas semanas, ele estava nas ruas de São Paulo. Veio para Sorocaba em busca de emprego, quer ser balconista, mas ainda não procurou vagas. Aqui parece ser bom, disse.
Marco não quis falar sua origem, apesar de ver que percebi seu sotaque estrangeiro. Deveria ser argentino ou uruguaio, mas tinha um livro em inglês. Poliglota. Parecia uma publicação de alguma universidade. Companhia?, falei. Ele riu, procurava nascer de novo. Perguntei se já havia morrido para conseguir renascer. Quem está vivo sabe onde está a vida, respondeu, com o sotaque enrolado. Na continuação dos devaneios, disse que havia uma festa antes de chegarmos. Estava tudo colorido e brilhando. Deveria estar sob efeito de algum entorpecente só não sei informar qual.

Além do álcool, muitos utilizam entorpecentes como fuga da realidade em que vivem. Maconha, crack e cola são as substâncias mais comuns encontradas nas ruas. Na praça Ferreira Braga (Largo do Rosário), alguns grupos dividiam o espaço com barracas de feira de artesanato, que ajudavam a escondê-los. Ao perceberem a nossa presença, fizeram um sinal para que saíssemos dali ou nos juntássemos a seus cachimbos. Ninguém foi agressivo.

São visíveis as diferentes tribos que dividem a mesma condição de estar nas ruas. Os vários segmentos da população de rua frequentam lugares distintos. Garcia explica que os moradores que possuem problemas crônicos de alcoolismo ou doença mental, não se misturam com os mais jovens, que usam crack ou se prostituem.
A maior parte deles procura um lugar para se esconder, qualquer canto que ofereça privacidade e segurança, afinal, a cidade não gosta deles e preferia que eles não estivessem ali. Misturados à paisagem, não se sabe se eles pertencem a rua ou se a rua pertence a eles. Depois de um tempo, eu já estava habituada, já fazia parte daquilo tudo. Calei-me e senti o peso da exclusão e do cansaço. Já passava das duas e procurávamos um lugar para passar o resto da noite. Fomos ao viaduto ao lado da Igreja Universal, na avenida Eugenio Salerno. Um viaduto é um lugar bom, não para passar a vida, mas para ver a vida dos outros passando. Lá é moradia de um homem negro de olhos esverdeados. Ele ocupa o lugar há cerca de três anos, mas não quis conversa. Só permitiu a nossa estadia em sua ‘residência durante a noite. Podemos dormir aí? É coberto. Pode, não tem problema.
 
O viaduto tremia com o passar dos veículos. O lugar estava muito sujo e o cheiro de urina era quase insuportável. Apesar disso, não era habitado por ratos, apenas algumas baratas perambulavam para cima e para baixo. O barulho dos carros já nem incomodava mais. O silêncio sim, quando dominava a madrugada. O frio bateu e as cobertas que levei num saco de lixo e os papelões que pegamos na Braguinha salvaram a noite. Um galo anunciava que ela já estava no fim. Dormir, naquelas situações, era bem difícil até para quem está acostumado. Percebi que não há descanso para quem dorme nas ruas. A todo momento, por qualquer barulho, eles acordam, se levantam, procuram uma posição mais segura. A pessoa não escolhe como vai dormir, simplesmente dorme.
Combinei com o fotógrafo que, se um dormisse, o outro ficaria acordado prestando atenção na rua. Não deu certo. O cansaço pegou os dois de repente e cochilamos debaixo do viaduto. Acordei com um rapaz alto, mulato, em pé, de braços cruzados olhando para a gente. Não sei há quanto tempo estava ali. Fiquei assustada, mas não demonstrei. Perguntei de uma vez: Que foi? Ele respondeu que estava procurando uns ‘negócios dele. Bruno falou que não tinha nada dele com a gente. Perguntei o que tinha acontecido e ele falou que tinham levado as coisas dele embora. Eu, ingênua para uma moradora de rua, fiz outra pergunta: Te roubaram? Ele descruzou os braços e disse, ríspido: Me roubaram nada, eu que roubei umas fita aí (sic) e me levaram. Na hora em que eu pegar, vai doer. Pediu um gole de pinga e um cigarro e foi embora depois de pedir desculpa por incomodar. O morador do viaduto falou para a gente não se preocupar que não tinha perigo. Senti medo. Fomos embora com o dia quase amanhecendo, estava a salvo.

Na noite seguinte, eu tinha meu lugar. Estava em casa, com as minhas coisas, alimentada e de banho tomado, mas não conseguia dormir do mesmo jeito da noite anterior. Minha cabeça não entrou em casa, havia ficado na rua, junto com aquele vazio todo, cheio de significado. Ficava pensando neles. Em cada um que a gente encontrou pelo caminho. Como estariam? Onde estariam? Será que estavam dormindo no mesmo lugar da noite anterior? Será que estava mais frio? Mais perigoso? Será que encontraram as mesmas dificuldades? Como será que passaram o dia? Será que conseguiram comer algo? Será que pensaram em sair dali e tentar resgatar seus sonhos ou ainda os deixaram levar pelo vento frio e o barulho de carros na madrugada? Será?
Acho que não vou mais conseguir dormir em paz.


Exaustos após perambular pelo Centro,
encontraram abrigo sob um viaduto e dormiram no chão

Foto: Erick Pinheiro

Catador de lixo reciclável deu informações
 aos jornalistas sobre ‘abrigos noturnos
Foto: Bruno Cecim

Junto à rodoviária, os jornalistas conseguiram
algum dinheiro pedindo esmolas
Foto: Erick Pinheiro

O 'morador' dos baixos viadutos
Foto: Bruno Cecim

Marco busca emprego de balconista acabou
 passando a noite numa soleira da rua José Bonifácio;
Foto: Bruno Cecim

Flagrantes dos
moradores de rua


Bruno Cecim
Notícia publicada na edição de 04/04/2010 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 4 do caderno D

 


Veja as imagens sob a lente do fotógrafo Bruno Cecim
 (http://www.cruzeirodosul.inf.br/materia.phl?editoria=86&id=280499)




Trilha da exclusão


Andamos, a repórter e eu, pelas ruas frias e quase desertas da região central da cidade de Sorocaba. Sem segurança alguma, percorremos por lugares abertos, becos, praças, marquises e calçadas. Também sentimos frio e fome e pior, o medo do desconhecido. Tudo isso para viver na pele a triste realidade de quem só tem a rua como lar.


Tem um trocado ai?


Ser morador de rua tem muitos preços e um deles é a invisibilidade. Quase todas as pessoas que passam se quer te olham, quando o fazem, é com medo e nojo.

Percebi que o preconceito é constante. Como ainda não sabia que estava falando com um morador de rua, um funcionário da rodoviária me respondeu que tinha banheiro, mas quando perguntamos onde fica o SOS, ai a coisa mudou, ele descobriu quem eramos e ao pedir novamente, a resposta foi que estava fechado.

Muitos veem mas não fazem nada, simplesmente ignoram e fingem que não existimos, outros talvez por serem mais acostumados com a presença de um morador de rua até colaboram, em geral uma moedinha de vinte e cinco centavos (acho que porque ela parece a de um real), ou mesmo uma coisa para comer, como em uma ocasião que em vez de dinheiro, um dono de um bar gentilmente me deu uma singela esfirra.


Vi que aquela noite, pelo menos, não morreríamos de fome. Já eles buscam esta certeza diariamente.


Na hora de dormir


Engana-se quem pensa que todas as pessoas que moram na rua são alcoólatras e usuários de droga. I isso até acontece, mas eu diria que o álcool é um aditivo para dar coragem e ânimo para quem tem que encarar os muitos perigos da noite. Lembro de um caso que me chocou muito na época, uma terrível chacina ocorrida na cidade de São Paulo, em que sete moradores de rua foram brutalmente assassinados sem motivo algum, isso sem falar da já famosa chacina da Candelária.

O galo cantando e o dia quase clareando, percebi que a partir desta noite algo em mim tinha mudado. Agora sei - é muito triste ver que muitas pessoas acham tudo isso normal e muitos já se acostumaram com esta dura realidade, mas para quem foi para fora viver de dentro esta situação, como fizemos, sabemos que não é bem assim. Quando paramos de lutar uns pelos outros, contra injustiças, é neste momento que perdemos nossa humanidade.

Não tenho dúvida, o mais complicado é a total insegurança de dormir ao relento, pensar no risco de que algo de mal possa acontecer, acabou não me deixando dormir ao lado de um real morador de rua e literalmente debaixo de uma ponte. Tirei apenas um leve cochilo.

Se conseguisse dormir, gostaria de sonhar que um dia teríamos um país com menos desigualdades sociais, sem desemprego, que todos tivessem condições de ter uma vida mais digna, tanto para si quanto para sua família, sem distinção de raça, cor, classe social, ou qualquer outra condição.

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