Manoel Peres Sobrinho*
Por vezes, o que os homens procuram com afã infatigável, está bem debaixo do seu nariz – A. A.
Adoro a chuva. Não com uma adoração de seres divinos, mas com espetacular especificidade. Gosto de ouvir seus pingos no telhado. Gosto de ouvir seus trovões ameaçadores e luminosos. Não me amedrontam. Pelo contrário, me trazem alegria, paz interior. Fico em estado de graça, como diriam alguns. A chuva é como um lavar de alma. Uma espécie de banho de alegria. Depois da chuva é só olhar para a natureza e ver que tudo está rindo, alegre, agradecido. O ar fica mais limpo. As folhas ficam mais verdes e viçosas. As plantas, de um modo geral, são as que mais agradecem. É bonito só de ver. Além daquele cheiro de terra molhada que sinto. É bom demais. Pena que com tanto asfalto até isso está sendo tirado de nós. Mas muita coisa bonita ainda dá pra se notar. É verdade que não tenho nada contra um dia de sol, ventoso, nublado e só. Só tenho uma particular predileção pela chuva. Acho-a mais intensa, dramática. Sua performance é mais incisiva. Ela quebra a rotina. Determina comportamentos. Aumenta o trânsito. Deixa caótico o dia que, em outras circunstancias, passaria despercebido, somente com aquele ar de monotonia. A chuva é como alguém que chega e não dá pra não ser notado. Ela tem personalidade forte. Abrangente. Ela é espaçosa. Cheia de si. Gosto dela por isso mesmo. Sou um apaixonado. Além do que. A água caindo no rosto, molhando o chão, fazendo poças. Molhando as pessoas, as coisas, alegrando um ou deprimindo outros de acordo com o interior de cada um. Ah, a chuva, sempre a chuva. Se eu pudesse escolher, gostaria de morar num lugar que nunca parasse de chover. Chover todo dia. Dia e noite. Toda hora, todo instante. Chovesse forte, chovesse fraco. Com ventos, com raios, com trovões. Chuvas, chuvas e mais chuvas. Que ficasse tudo encharcado até aos ossos. E também, chuva com frio e chuva com calor. Chuva pra gente usar as capas coloridas. As capas escuras e lindas com estilo de gente rica. Quando eu morrer quero que seja num dia de chuva. Aí só irão aqueles que me amam gratuitamente e acham que tenho algum valor. Será um dia solene até na natureza. A chuva batendo nos pára-brisas dos carros, enquanto o meu corpo vai deslizando pelas ruas vagarosamente conduzido pelo carro funerário. Vai ser lindo, triunfal. No cemitério a dificuldade para levar o corpo até o jazigo. E mais chuva. Alguns dirão que o céu está lamentando a minha partida. Outros, porém, dirão que estou dando trabalho até no dia da minha morte. Mas que importa, contanto que seja num dia assim. Com chuva, muita chuva. Ah, chuva, sempre a chuva. Pena que parou de chover. (3:09h).
(*) Querendo conhecer outros textos do autor acesse: http://meusartigosprediletos.blogspot.com
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