André Moraes
IBGE aponta que existem 1.620 pessoas convivendo com esgoto a céu aberto próximo de suas casas
Sílvia vive no Jardim Toledo e se incomoda com o esgoto a céu aberto - Por: Adival B. Pinto
Votorantim pode ser considerada
uma cidade de contrastes. Em um mesmo bairro do município existem
famílias que vivem com toda a infraestrutura disponível em espaços
urbanos, enquanto outras convivem em ruas e casas em situações
precárias. Os números do Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatísticas (IBGE) evidenciam essa falta de infraestrutura urbana,
já que dados da pesquisa, divulgados recentemente, apontam que dos
104.011 habitantes moradores de Votorantim, 4.872 pessoas vivem em
locais sem pavimentação asfáltica, 1.620 convivem com esgoto a céu
aberto no entorno de suas casas e 1.197 habitam ruas que não contam com
iluminação pública.
Em um passeio por alguns bairros, não muito afastados do Centro, é possível perceber esse contraste. Casas que podem ser consideradas "de classe média", atendidas por asfalto e rede de água e esgoto, dividem a vizinhança com barracos de madeira, instalados na terra e com esgoto correndo a céu aberto em suas proximidades. Há ruas de terra que terminam em vias asfaltadas no meio de um mesmo bairro, postes de luz que não chegam a todos os pontos e favelas instaladas ao lado de condomínios fechados.
A pensionista Ondina Cardoso Frontora, 67 anos, faz parte de uma das famílias que aparecem nas estatísticas do IBGE. Ela mora há 30 anos em uma via de terra do bairro Vossoroca. Logo na rua de trás de sua casa, ela percebe que seus vizinhos moram em frente ao asfalto e com toda a infraestrutura necessária para se viver dignamente. Para chegar até sua casa, Ondina precisa subir uma viela de terra bastante íngreme, que fica quase intransitável em dias de chuva. "Quando chove fica uma lameira só e muita gente cai e se machuca por aqui", diz.
O local onde a pensionista mora fica no pé de um morro, por isso as casas ficam abaixo do nível da rua. Essa situação trouxe problemas para uma das moradoras, a autônoma Rosimeire Santos Caetano, 42 anos. "Com a chuvarada dos últimos dias, meu muro não aguentou o volume de água que desce aqui e caiu, na última quinta-feira", conta. Segundo ela, a escuridão do lugar incomoda também, já que facilita a ação de criminosos. "Isso é triste, pois até dá medo de ir para a igreja à noite."
Para a Prefeitura de Votorantim, os dados do IBGE apontam que as 4.872 pessoas que moram em locais sem pavimentação asfáltica na cidade, vivem em ruas de terra que representam "somente 2% do município". De acordo com a administração municipal, por meio de nota da assessoria de imprensa, Votorantim possui 142 ruas e avenidas asfaltadas, representando 352.246 metros quadrados de pavimentação. Quanto à falta de iluminação pública, a administração municipal alega que "praticamente 100%" da área urbana conta com esse benefício, sendo que existe um projeto para instalar postes de luz na área rural do município.
Silmara teve seu barraco invadidopela água das chuvas desta semana - Por: Pedro Negrão
A falta de asfalto nas ruas gera incômodos como a lama, que se forma sempre que chove forte - Por: Pedro Negrão
Itapeva
A falta de infraestrutura urbana chama a atenção, também, no bairro Itapeva, ao lado do Jardim São Lucas. Isso porque no local existe uma grande favela, na qual vivem mais de 300 famílias, em pequenos barracos de madeira, instalados em ruas de terra - algumas vezes intransitáveis - e com falta de iluminação pública. A catadora de materiais recicláveis Silmara dos Santos, 39 anos, mora no local há 20 e ainda espera que alguma melhoria seja feita por lá. Seu barraco, de três cômodos, acabou de ser atingido por uma grande correnteza de água e lama - por causa das chuvas - e ontem de manhã ela contava as roupas que iria conseguir salvar dessa tragédia. "O que der eu vou lavar, mas se não tiver jeito, vou ter de jogar fora", relata.
A vida difícil também afeta a aposentada Antônia Rosa da Silva, 82 anos, porém ela ainda não desistiu de ter esperança de poder morar em um lugar melhor. O sorriso no rosto é constante, mesmo que ela esteja falando sobre o esgoto que, às vezes, jorra na rua de sua casa. "Tem canto aqui que cheira muito forte", afirma. Ela também lembra dos dias chuvosos, em que as madeiras do barraco não suportam a água e ela tem de se virar do jeito que puder. "Quando vem a chuva, a goteira pinga a noite inteira no meu quarto, então eu coloco um balde e fico ali, do lado, dormindo quietinha."
O problema do esgoto a céu aberto também é sentido em outra região da cidade, no Jardim Toledo. Os moradores denunciam que o córrego do Vidal recebe, há muito tempo, o esgoto das casas do bairro. "É terrível. Tem dia que o córrego está uma podridão", ressalta a dona de casa Sílvia Alexandre do Nascimento, 47 anos, que mora no bairro há 18. Segundo ela, a própria população também acaba agravando a situação do córrego, já que despeja lixo e entulho às suas margens. "Aqui o pessoal não respeita nada."
Sem favelas
A aposta da Prefeitura de Votorantim para solucionar os problemas de infraestrutura vividos por milhares de votorantinenses está no programa "Votoratim sem Favelas" por meio do qual pretende retirar as famílias de locais que não contam com ruas asfaltadas, iluminação pública e convivem com esgoto a céu aberto. A administração municipal relata que 900 moradias serão construídas, sendo que as primeiras 100 - que ficam no Vila Pedroso 3 e já estão sendo construídas - devem ser finalizadas em outubro deste ano. Até o fim do ano a expectativa é de que 360 famílias já devam ter recebido seus apartamentos. A entrega de todas as propriedades está prevista para meados de julho do ano que vem. Além disso, o poder público informa que também está sendo trabalhada a liberação de uma nova área, onde pretende implantar mais mil moradias. Elas deverão atender, dentro do "Programa Minha Casa, Minha Vida", as famílias com renda de até três salários mínimos.
Já sobre a situação do córrego do Vidal, que se tornou um esgoto a céu aberto, o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) de Votorantim informa que uma equipe técnica, juntamente com os profissionais da concessionária Águas de Votorantim, já finalizou o levantamento topográfico do trecho onde será implantada a rede emissária de esgoto daquela região. Ao todo serão 600 metros de tubulação lançados na Estação de Tratamento de Esgoto Guimarães. Segundo o Saae, os serviços no local serão iniciados assim que a concessionária assumir o serviço de saneamento da cidade.
Faltam rampas de acesso aos deficientes
Notícia
publicada na edição de 14/06/2012 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página
012 do caderno A - o conteúdo da edição impressa na internet é
atualizado diariamente após as 12h.
Em Votorantim, apenas 2% dos imóveis contam com calçadas com rampas de acesso para deficientes físicos em suas quadras ou quarteirões. Segundo dados do censo 2010 do IBGE, das 30.672 residências existentes no município, 30.282 delas não possuem esse dispositivo que oferece acessibilidade a cadeirantes. O coordenador da Associação dos Deficientes de Votorantim (ADV), Jefferson Martinez, considera que essa situação é preocupante, mas acrescenta que a entidade sempre está em discussão com a Prefeitura, para melhorar as condições de locomoção dos deficientes.
Conforme o IBGE, os dados obtidos são referentes à existência de pelo menos uma rampa em cada uma das quatro quadras que compõem um quarteirão, ou seja, se faltou uma rampa em um quarteirão, este deixa de ser contabilizado como acessível. Também o levantamento do órgão não analisa a qualidade da calçada. Porém, essa realidade não é exclusiva de Votorantim, já que em Sorocaba, apenas 3,7% dos 175 mil domicílios urbanos possuem alguma rampa.
O coordenador da ADV acredita que essa situação encontrada em Votorantim pode ser relacionada com os aclives e declives existentes na cidade, que possui muitas áreas com morros em seu território. De acordo com ele, um cadeirante não consegue, por exemplo, se locomover por uma extensão muito grande sem encontrar um obstáculo pela frente. "Aqui na cidade, cada um faz o que quer com a sua calçada, colocando degraus e o piso que quer, então isso dificulta também", informa Martinez.
Ele acrescenta que a associação possui um diálogo muito aberto com os representantes da Prefeitura sobre essa questão, portanto isso ajuda os deficientes a conquistarem os seus direitos. "Temos tido avanços, mas há ainda muito a ser feito", revela. Segundo Martinez, é preciso, também, que a população e os próprios deficientes se mobilizem mais, para que os avanços sejam ainda maiores. "Pois não dá para esperar do Poder Público uma reação para essa questão, não dá para esperar boa vontade", afirma.
A Prefeitura, assim como o coordenador da ADV, alega que essa pequena de porcentagem de calçadas acessíveis se deve à estrutura do município, que se encontra em uma região de morros. A administração municipal relata que, para minimizar esse problema, o setor de fiscalização tem intensificado os serviços para garantir que as áreas livres recebam o devido calçamento. (A.M.)






Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.