Maíra Fernandes
Aos 77 anos, Copérnico Martinez tem uma
rotina sagrada: pega todos os dias o ônibus Votorantim - Sorocaba com o
único intuito de declamar seus versos - Por: Adival B. Pinto
Já me ofereceram dinheiro e eu recusei.
Falo que não preciso de dinheiro, só preciso ler minhas poesias, deixar
uma mensagem bonita, diz Copérnico - Por: Adival B. Pinto
Nascido em Sorocaba, mas neto de legítimos espanhóis (os avós estão na capa do livro "Os Espanhóis", de Sérgio Coelho de Oliveira), Martinez conta que sua avó já recitava poesia e assim também fez sua mãe. "Ela aprendeu com minha avó e lembro dela sempre recitando poesias", explica ele. A mãe morreu em 1989, "foi quando me deu um "tric" de nunca ter escrito uma de suas poesias, para guardar de recordação".
A mudança na vida de Martinez só viria a ocorrer três anos depois, quando precisou passar por uma cirurgia. No hospital, o aposentado começou a recitar as poesias de sua mãe, em espanhol, a ponto de causar estranhamento nos pacientes próximos. "Tenho certeza que ela me visitou e me passou aquelas poesias", afirma ele, que saiu do hospital com a saúde estável e com as poesias "Pájarito" (Passarinho) e "Nabida" (Natal) na memória. As duas, recorda, eram composições de sua falecida mãe.
Após o episódio, Martinez começou a também compor poesias. De forma espontânea e bilíngue, o que mais surpreende é que, como as duas, também não as escreve, mas guarda na memória. "Guardo tudo na mente", gesticula, apontando a cabeça amparada por um elegante chapéu.
O único recurso que usa é uma tabela, numerada e com os nomes das poesias, para que não esqueça de nenhuma das quais têm à disposição. "Mas é só para isso", garante ele, que também pede para que algumas pessoas escolham a poesia que querem ouvir, a partir dos nomes. E a lista tem títulos sugestivos em bom português como "Meu Amor", "Amada", "Nosso Amor"; e também em espanhol, como "Nesta Mañana", "Padrecito", "Madrecita"; além das letras de músicas preferidas que também declama, como "Risque" (Ary Barroso) e "Gracias a La Vida" (Violeta Parra).
Mas não é de se estranhar que seu repertório se ocupe de saudar o amor em todas as formas. Viúvo há sete anos, Martinez conta que usa os dotes de poeta também para agradar sua namorada. "Ela perguntou por que eu não fazia uma poesia para ela, daí eu fiz e dei o nome de "Voar", gravei em um disquinho e dei para ela. Ela ficou tão feliz que disse até que o disquinho iria furar de tanto ouvir", diverte-se.
Há dois anos
Desde que se mudou para Votorantim, há dois anos, segue uma rotina que poderia ser um fardo para as demais pessoas; mas não para ele. Para Martinez, acordar cedo e ir para o terminal tomar um ônibus é a melhor parte do dia. Por volta das 10h, embarca no ônibus que segue rumo a Sorocaba e já começa sua apresentação. Sempre olhando para o público, o elegante poeta explica que irá apresentar uma poesia; caso ninguém goste, ele para por ali. Mas se houver aprovação, ele pode seguir por todo o percurso declamando seus versos.
Pelo tempo de atividade, o aposentado já é conhecido da maioria dos usuários. Mesmo assim, recebe aplausos no fim da apresentação de cada poesia, que sempre vem acompanhada de um comentário do autor.
A exposição diária e o contato com o público, renderam-lhe boas amizades, mas há também quem não entenda o motivo de tanto desprendimento do poeta, que adianta que não ambiciona nada que não seja poder declamar seus versos. E por fazê-lo em local público, exposto a críticas das pessoas, conta que já passou por diversas situações. "Quando veem alguém falando alto no ônibus, ou está bêbado ou está falando bobagem", acredita ele, que precisa reforçar às pessoas que não está ali pedindo dinheiro, mas atenção. "Já me ofereceram dinheiro e eu recusei. Falo que não preciso de dinheiro, só preciso ler minhas poesias, deixar uma mensagem bonita", conta o poeta, orgulhoso ao lembrar a reação das pessoas, que muitas vezes chegam e agradecem, dizendo que "ganharam o dia" ao ouvir os versos declamados por ele.
Alheio ao caos da cidade, aos sons do ônibus, do trânsito, das pessoas falando em seus aparelhos de telefone celular, e da própria indiferença de alguns passageiros, o poeta segue firme, com sua voz imposta, se equilibrando entre os percalços do percurso. "Isso aqui é a minha vida! Não consigo ficar um dia sem fazer isso", enfatiza, ao descer do ônibus, em frente ao Terminal São Paulo, seu ponto final.


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