domingo, 8 de julho de 2012

Pelo basquete, jovens deixam até o conforto de casa

Notícia publicada na edição de 08/07/2012 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 4 do caderno D
Ana Paula Yabiku Gonçalves
Programa de estágio

 A equipe é praticamente uma família e as meninas são monitoradas dentro e fora da quadra - Por: Luiz Setti


Técnico Paulo César Tonche - Por: Luiz Setti



Dormir e acordar a hora que quiser, deixar o quarto bagunçado e ter o próprio cantinho. Para muitos, essas são apenas algumas das vantagens de morar sozinho. Mas a mudança para um bairro tradicional de Sorocaba, no começo do ano, não foi nem um pouco fácil para a estudante Jaqueline Affonso, de 14 anos. Apaixonada pelo basquete, Jaqueline deixou a cidade natal, Itapetininga, para compor o Luluzinhas, time feminino de basquete de Votorantim.
"A mudança foi complicada para os meus pais e, principalmente, para os meus dois irmãos menores", conta. A estudante costumava cuidar dos irmãos Gabriel e Caio (de 2 e 4 anos, respectivamente), enquanto os pais trabalhavam. "Eu era muito próxima deles. Agora, quando vou pra lá, um deles diz que não somos mais irmãos porque eu moro longe". Com o tempo, entretanto, tanto os caçulas quanto Jaqueline aprenderam a lidar com a distância. Quando a irmã não pode viajar até Itapetininga, Caio e Gabriel vêm visitá-la em Sorocaba.
Influenciada pelo padrasto, que jogava em Americana e chegou a fazer parte de times profissionais em São Paulo, Jaqueline treina basquete desde os 9 anos de idade. Começou em um time amador de Itapetininga, que fazia alguns amistosos contra as cidades da região, mas nunca chegou a disputar competições oficiais. "Tínhamos técnico e horário para treinar no ginásio. Apesar de organizado, era mais um bate-bola com as minhas amigas", explica.
A estudante joga na equipe de Votorantim desde o final de 2008, quando foi selecionada pelo técnico Paulo César Tonche. No início, viajava para Sorocaba às sextas-feiras e ficava até domingo na casa do treinador. Quando havia feriado, prolongava o período de terinamento, mas em seguida, voltava para casa.
A equipe feminina de basquete de Votorantim começou a ser formada quando a filha do técnico, Laís Tonche, despertou o interesse pelo esporte. Pensando nisso, Paulo decidiu treinar o time para participar de torneios oficiais e foi em busca de jogadoras diferenciadas e competitivas fora de Sorocaba e Votorantim. "O basquete feminino nas duas cidades está falido, não há onde buscar atletas", explica. Paulo realizou seletivas, escolheu meninas em escolas e distribuiu panfletos. Além de Jaqueline, outras jogadoras foram selecionadas. Com o time formado, o técnico foi atrás de apoio.
Numa reunião com o empresário Francisco Pagliato, responsável pelo Colégio Ser, o treinador conseguiu bolsas de estudos para as atletas. As refeições ficaram por conta do Restaurante Terraço. "Eles nos concedem refeições dois dias por semana, nos outros dias eu compro", conta Paulo. Para ajudar, os familiares das meninas também são realizadas rifas e vendidos bolos, tortas e camisas durante os jogos.
As três vivem numa casa alugada pela vizinha de Paulo, Akemi Kamonsiki. O aluguel de R$ 800,00 é pago pelo técnico, assim como as contas de água e luz. Uma compra semanal de mantimentos também é realizada pelo técnico. "A Akemi acaba me assessorando. Não há obrigatoriedade, mas ela quer o bom andamento da coisa", explica. Os pais ainda colaboram com dinheiro toda semana e, quando vão para casa, as meninas trazem comida e outras coisas necessárias.
Com a mesma idade de Jaqueline, a paulista Petra dos Santos Bibiano Leal chegou à cidade no início do ano, após passar por uma seletiva. Apesar de ter tido o seu primeiro contato com o basquete só aos 11 anos, Petra já sonha em ser jogadora profissional. "Mesmo ninguém praticando esporte na minha família, não penso em seguir outra profissão", explica. Em São Paulo, a lateral treinava num clube do bairro onde morava. "Mesmo diferente, a experiência está sendo ótima, pois é o que eu quero seguir."
A mais velha das três, Nataly Christy Martin, já completou 15 anos e também passou a fazer parte da equipe a partir deste ano. Vinda de Santa Bárbara do Oeste, Nataly rendeu-se ao basquete aos 8 anos de idade. No começo, conta, era um hobby mas, com o tempo, começou a jogar pelo time da cidade e de outros municípios da região. Para ela, a reviravolta na rotina também foi difícil no começo e foi preciso tempo para aprender a se virar sozinha e se acostumar com a saudade da família. "Os meus pais estavam sempre ali comigo, me levando para qualquer lugar", lembra.
Além disso, explica Nataly, "a convivência entre mulheres geralmente acaba em brigas... Ou risadas", já que as três são sonâmbulas e fazem brincadeiras umas com as outras durante a noite. "Apesar de não pararem em casa, as meninas fazem uma bagunça. Daqui a pouco o vizinho vai bater aqui e perguntar: Que gritaria é essa?", conta Akemi.
Regras
As meninas fazem musculação duas vezes por semana e treinam de terça a sábado. Os jogos acontecem geralmente aos finais de semana. Quando não estão ocupadas com o basquete, elas têm que se preocupar com os deveres da escola. "Elas vieram aqui única e exclusivamente para jogar basquete. Então, só o que os pais cobram, além disso, são os estudos", explica Paulo. Apesar de não conseguir acompanhar o aprendizado das meninas, o técnico recebe as notas e garante a presença das meninas nas aulas -- sua esposa leva e busca as atletas nas escola. "Assim também impedimos que elas andem sozinhas pela cidade. Quando elas saem de casa vão acompanhadas e nunca voltam sozinhas", relata Paulo.
Outra regra exigida pelo técnico é não receber ninguém em casa, nem grupos de estudos. Se precisam estudar, elas combinam de se encontrar com os colegas na escola ou na casa deles. "O lugar é fechado e tem sempre uma pessoa de olho para me dizer se entrou alguém não desejável ou proibido na casa", admite. À noite, as jogadoras também são proibidas de circular na rua, já que pode comprometer a segurança delas. Entretanto, já chegaram a ir em festas de amigos da escola e shows da festa junina de Votorantim. Paulo levou, buscou e sua filha e outros membros da equipe acompanharam. (Supervisão: Amilton Lourenço)

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