Notícia publicada na edição de 20/01/2013 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 003 do caderno C -
Maíra Fernandes
Maurício Sérgio Dias assume a pasta na cidade e pretende realizar trabalho em conjunto com as lideranças da região
Figura conhecida do meio cultural sorocabano, o professor, pesquisador e músico Maurício Sérgio Dias, também conhecido como Toco, é o novo secretário da Cultura de Mairinque. Maurício é sorocabano, mas morou bons anos da vida em Mairinque. Pelo menos nesse primeiro momento, se dividirá entre as duas cidades para dar conta da gestão e também manter suas atividades por aqui. "A vida artística não para", sustenta ele que, por força das circunstâncias, estará mais focado na gestão da pasta.
Pesquisador da cultura popular, é mestre em História Social da Cultura pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp), milita na área cultural desde a juventude. Em Sorocaba, participou de vários fóruns culturais, em especial na discussão da Lei de Incentivo à Cultura de Sorocaba (Linc). Como historiador, publicou três livros e sua última pesquisa foi sobre a história do Sesc Sorocaba, que ainda está em trâmites de aprovação na instituição.
"No centro de nosso projeto de governo se localiza a formação", adianta ele sobre um dos principais projetos da pasta. O secretário também conta que pretende estreitar os laços com as secretarias da região, para projetos que possam unir os municípios. "Creio que se conseguirmos estabelecer canais de diálogo, como sugeriu um dia Gabriel Bitencourt, poderemos promover uma ação conveniada nunca antes vista na região", defende. Confira a entrevista:
Como foi o convite e por quais motivos aceitou?
Ele ocorreu devido ao processo de aproximação com a campanha do atual prefeito de Mairinque, Binho Merguizo (PMDB), nas duas últimas campanhas. Eu fiz parte da equipe que trabalhou nas campanhas de 2008 e 2012. Meu nome foi indicado pelo João Bid, grande músico mairinquense e que já conhecia minha trajetória como produtor de cultura e estudioso da área. O José Zumckeller, que é o atual secretário de Educação (pasta onde está posicionado o Departamento de Cultura),
corroborou a indicação e Binho assinou embaixo.
Quais os principais desafios de sua gestão?
Apesar de ser dada toda liberdade para se realizar um trabalho, creio que todos nós da administração temos, por obrigação e responsabilidade, de seguir as linhas principais de nosso plano de governo, colaborando no projeto global da administração Binho Merguizo. O papel da pasta de Cultura é, a meu ver, investir na retomada da autoestima do povo de Mairinque. Para que se instaure um novo clima são necessárias novas posturas. Uma postura nova frente ao patrimônio histórico, por exemplo. Estamos firmando convênio com o Senai para a instalação na cidade de um curso de restauro. À frente deste projeto estará o professor Júlio Barros, com currículo invejável neste campo de atividades, tendo realizado trabalhos por uma década e meia em Ouro Preto/MG, mais outros cinco anos no Pelourinho em Salvador/BA, responsável por políticas de patrimônio em Sobral/CE, Santana do Parnaíba e Iperó. . Nosso patrimônio ferroviário será tratado como merece, e a população de Mairinque verá um novo município nascer deste respeito. Respeito aos seus jovens, com um curso profissional voltado para eles; uma geração de empregos, a partir de um turismo cultural nascido no melhor da tradição; um respeito pela sua história e pela história de cada um na cidade. Novas outras posturas também serão tomadas frente ao ensino de artes na nova escola livre; uma nova política de eventos, captando novas atrações junto aos parceiros; um respeito à produção local, construindo uma agenda conjunta entre artistas, população e poder público.
E quais os principais projetos, ou os mais urgentes?
No centro de nosso projeto de governo se localiza a formação. Todas as ações estarão voltadas a ela. Mas a formação que falamos terá uma diferença de público fundamental. As escolas de artes vinculadas às pastas de cultura tradicionalmente enfocam seu trabalho na formação de especialistas: querem formar músicos, bailarinos, atores, pintores. Em se tratando de investimento do dinheiro público, eu vejo aí um erro de avaliação. Vamos refletir: numa classe iniciante de música, por exemplo, de 10 alunos, quantos deles seguirão carreira? Dois? Três? E para os outros sete, nosso curso não se dirige a eles também? Os mais rigorosos podem dizer "por que largaram o curso na metade; agora o problema é deles". As coisas, contudo, não podem ser tratadas assim. Uma escola livre de artes deve, a meu ver, nos primeiros anos de cada curso, ser mais abrangente, tendo como foco a formação de um sujeito mais culto, com uma visão artística ampliada. Uma característica que vemos cada vez mais em voga é especialistas que dialogam apenas com sua área de formação. Isso aparece cada vez mais nas artes, mas está em todos os ramos. Nós da cultura temos que colaborar para que nossos alunos tenham uma formação mais ampliada. Muitos podem dizer: "você corre o risco de cair no diletantismo, num ensino muito amador". Em primeiro lugar, esta modalidade de ensino estaria bastante focada para os primeiros anos, sendo incorporada por um ensino mais exigente a medida em que o aluno cresce no interior da escola de artes. Segundo, se não for para ampliar o ensino a todas as áreas do município, não me interessa ser um gestor público de cultura. A democratização e popularização de nosso ensino de artes estão na base do plano de governo da gestão Binho Merguizo. Por isso, nosso ensino não ficará recluso aos equipamentos culturais, e sim se espraiará pelo tecido da sociedade em ações itinerantes. Este é um projeto ousado, mas é apenas um dos projetos que pretendemos colocar em ação: um ensino ampliado de artes, aberto para todos.
Haverá diálogo com as cidades vizinhas? E projetos e parcerias com o Governo Federal e Estadual?
Acho que um panorama bastante positivo se abriu nestas eleições para a cultura em nossa região. Muitas lideranças de formação na área, com reconhecimento acadêmico e/ou social ingressaram nas pastas de cultura: o Simões em Sorocaba, o Marcelo Domingues em Votorantim, a Débora Bergamini em Araçoiaba, o Roque em São Roque, só para citar alguns nomes, demonstram um quadro bastante positivo. Creio que se conseguirmos estabelecer canais de diálogo, como sugeriu um dia Gabriel Bitencourt, poderemos promover uma ação conveniada nunca antes vista na região. Já estamos com contatos bastante avançados com São Roque e pretendemos seguir nesta direção com outros municípios. Quanto às outras esferas do poder executivo, já estamos em conversação desde novembro. Já tivemos a primeira reunião com o Ministério da Cultura, em que traçamos metas para instaurar o sistema municipal de cultura em Mairinque. Em nossa reunião, fizemos uma agenda que se desdobre numa visita do MinC à cidade, provavelmente em março. Nunca é demais lembrar que um dos pioneiros na discussão sobre cultura na região, o ex-secretário de cultura de Votorantim, Glauber Piva, está dirigindo a Agência Nacional de Cinema (Ancine), que será uma parceira de nossa região. As conversas ainda estão iniciando com a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, mas temos bons contatos, especialmente no Museu da Língua Portuguesa, que está sendo dirigido pelo Sartini, antigo dirigente das oficinas culturais. Com ele tivemos uma boa orientação, pois é uma pessoa muito generosa e está sempre disposto a uma conversa. Interessa-nos participar do Circuito Cultural Paulista, assim como travar contato com as companhias e bandas aprovadas pelo Proac. Outras parcerias estão sendo buscadas, como a do Sesc. O Sesi tem se mostrado bastante receptivo a ideia de estabelecermos parceria. Já fizemos reuniões, mandamos ofício firmando-a e pretendemos implementar ações num curto espaço de tempo. Temos nos mexido bastante para fazer de Mairinque um lugar melhor de se viver, inclusive culturalmente.
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