Revista Isto é Dinheiro
NEGÓCIOS
Nº edição: 815 |
Negócios |
24.MAI.13
A família dona do grupo paulista Splice briga por uma fortuna estimada em mais de R$ 3 bilhões. Nessa disputa, a matriarca, Heloísa, foi interditada e um inquérito policial apura se houve evasão de divisas e sonegação
Por Rodrigo CAETANO
O patriarca: Alexandre Beldi, morto em 2010,
criou o grupo de telecomunicações em 1971
Entre elas, está a BR Vias, concessionária pública que administra
duas rodovias no interior de São Paulo, a Universidade Newton Paiva, de
Minas Gerais, e empresas nas áreas imobiliárias e de telecomunicações. O
patrimônio atual dos negócios no País é avaliado em R$ 1,4 bilhão. A
TCO já não faz mais parte dos ativos da família. A operadora foi vendida
para a Telesp Celular, da Telefônica, em 2003, por R$ 1,4 bilhão.
Todo esses ativos, aos quais se soma um quantia bilionária no Exterior,
estão no centro de uma disputa familiar, deflagrada com a morte de
Alexandre, em 2010, com lances que envolvem a interdição judicial da
matriarca, Heloísa, acusações de agressões e ameaças e um inquérito
policial para apurar crimes de evasão de divisas e sonegação.
De um lado, estão os irmãos Toninho, Marco e Teresa, que controlam a
holding Splice. De outro, alinham-se as quatro irmãs: Inês, Heloísa,
Lourdes e Cláudia. Fábio, o oitavo filho de Alexandre e Heloísa, é o
único que adotou uma posição neutra. Além dos bens que constam do
inventário no Brasil, os Beldi brigam por uma fortuna estimada em R$ 2
bilhões, que teria desaparecido no Exterior, segundo a versão das quatro
irmãs. Atualmente, 19 ações judiciais estão em curso contra Toninho e
seus filhos Thaís, André e João, por conta do inventário que está
parado. As brigas familiares começaram logo depois da morte de
Alexandre. Inês, a filha mais velha, afirmou à DINHEIRO que Toninho, sem
motivo aparente, passou a perseguir as quatro irmãs, despojando-as da
maior parte de seus bens.
O primogênito: Antônio Beldi, o Toninho, é quem comanda a empresa.
Quatro de suas irmãs o acusam de esconder uma fortuna em paraísos fiscais
Seus filhos, por exemplo, foram despejados de apartamentos
pertencentes ao espólio do patriarca. Parentes que trabalhavam na Splice
foram demitidos. Mas o golpe mais duro foi dado contra dona Heloísa.
Toninho tentou interditar judicialmente a própria mãe. O pedido foi
negado, inicialmente. Meses depois, no entanto, dona Heloísa sofreu um
AVC e ficou incapacitada. Sem um acordo sobre quem ficaria responsável
pela matriarca, a Justiça nomeou um curador independente. Seus filhos
não podem mais visitá-la livremente. Para evitar atritos, ficou decidido
que cada um terá um dia para se encontrar com a mãe. Durante essas
visitas, nenhum dos outros herdeiros pode nem sequer aparecer na porta
de sua residência.
No condomínio onde vivia boa parte dos herdeiros, em Sorocaba, o
clima também ficou pesado. Construído por Alexandre, que deu uma casa
para cada um dos oito filhos, o local se transformou em um ringue das
brigas entre os irmãos. Toninho, que administra o empreendimento,
utilizava a empresa de segurança do condomínio para intimidar os irmãos,
ainda segundo a versão de Inês. Sempre que um deles passava pela
portaria, era seguido por um homem de terno, com cara de poucos amigos.
“Eles agiam de forma truculenta”, afirma Inês, que foi obrigada a se
mudar. “Temia tanto por minha segurança que sempre parava no posto de
gasolina que fica perto do condomínio antes de sair, para verificar se
os parafusos das rodas do meu carro estavam apertados.”
Retrato na parede: Toninho (à esq.) ao lado de Fábio, dona Heloísa,
Teresa e Lourdes. Embaixo, estão Heloísa (à esq.), Cláudia, Inês e Marco.
Por decisão judicial, os filhos só podem visitar a mãe um de cada vez
Seu filho Cássio, o neto mais velho de Alexandre e Heloísa, chegou a
ser agredido dentro da própria casa pelos seguranças, de acordo com a
herdeira. Não foram esses episódios de violência, no entanto, que
levaram o conflito dos Beldi a acabar na polícia. No primeiro semestre
do ano passado, Cássio, que era estagiário do banco Santander na Suíça,
levantou a suspeita de que Toninho poderia estar escondendo dinheiro no
Exterior. Ele descobrira uma série de transações envolvendo empresas
pertencentes ao avô, em sociedade com Toninho e os outros filhos homens,
em paraísos fiscais como Bahamas, Antígua e Barbados, Ilhas Virgens
Britânicas e na cidade de Delaware, nos Estados Unidos, de acordo com
documentos a que DINHEIRO teve acesso.
Os recursos utilizados nessas transações, segundo Cássio, seriam
oriundos das empresas do grupo Splice. Ele calcula que a fortuna da
família escondida lá fora seja de, no mínimo, US$ 1 bilhão. Em pelo
menos duas ocasiões, segundo esses documentos, Toninho teria transferido
as ações que possuía em empresas localizadas nesses paraísos fiscais
para outras, também controladas pelo primogênito ou por seus filhos.
Caso da venda da Freegold, no Uruguai, para a Kennington Fund,
localizada nas Bahamas. “Essas transações configuram crime de evasão de
divisas, sonegação fiscal e manutenção de conta no Exterior sem
declaração”, afirma o advogado Frederico Crissiúma de Figueiredo, do
escritório Castelo Branco Advogados Associados, contratado pelas quatro
irmãs para defender os interesses da família.
A partir dessas constatações, as quatro irmãs que não participam do
controle do grupo Splice decidiram lavrar um boletim de ocorrência
contra Toninho no 15º Distrito Policial, no bairro do Itaim Bibi, na
capital paulista. Um inquérito foi instaurado para apurar as denúncias. Trata-se
de uma medida que pode prejudicar a todos. Se ficar comprovado que
Toninho realmente transferiu ilegalmente recursos da Splice para o
Exterior, o patrimônio da família pode ser comprometido. Mais
do que isso, o nome do patriarca da família, Alexandre, pode ficar
manchado. Isso porque parte dessas transações suspeitas foi feita antes
de sua morte. Ou seja, a família feliz que aparece nesta página não
passa, hoje, de um retrato na parede. Procurado, Antônio Beldi não
concedeu entrevista.
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