http://espn.uol.com.br
Maurício Barros
Parte da torcida do São Paulo entrou em confronto com a polícia
Eu pretendia voltar do meu descanso de fim de ano falando de um 2016 utópico, das coisas que sonho um dia acontecer no futebol do Brasil e do mundo. Dirigentes altruístas, jogadores exuberantes nos campos, Guardiolas e Sampaolis multiplicando-se nos bancos com sobrenomes Silva, Pereira, Nepomuceno. Só que o estado zen durou 2 minutos - o tempo de ligar a TV e assistir a torcedores do São Paulo tocando o terror em jogo da Copinha em Mogi das Cruzes. No dia seguinte, piorou: li o que aconteceu no domingo com o time sub-15 do Corinthians: os garotos foram eliminados da Copa do Brasil Infantil e tiveram seu ônibus cercado lá em Votorantim por um bando de bárbaros, que os xingavam e ameaçavam. Todas as caipirinhas e dormidas na rede perderam seu efeito. Não tenho mais no corpo as areias curativas de Mongaguá, nem nos pulmões o ar redentor de Peruíbe. Me arrancaram tudo. Já estou uma pilha de novo. O futebol dá, o futebol tira.
Adoro a Copinha, acho sensacional ser inflada, mais de 100 times, com equipes vindo sei lá de onde - pense no Haiti! -, três dias de ônibus, jogos no interior, alojamentos, aquela coisa de todo ano. Tem drama, redenção, choro, alegria, uma ilusão danada que só o futebol é capaz de forjar. Centenas de jogadores tentando, só uns pingados vingarão. É o funil da bola. Poucos viram suco. Muitos, bagaço preso na peneira. Um pouquinho de Brasil aqui, outro acolá.
Mas as torcidas dos grandes sempre dão um jeito de estragar tudo! Sim, sempre eles. Reparem nas camisetas. São indivíduos absolutamente incapazes de viver de forma civilizada a prejudicar um patrimônio coletivo. "Não levo meu filho num jogo da Copinha", disse o Zé Elias ao comentar a pancadaria na ESPN. Isso é o que a gente não pode permitir. A Copinha abre o calendário do futebol, é de graça, perfeita para ser programa de férias. Mas aí vêm esses animais (me perdoem os bichos), com sua irracionalidade a níveis estratosféricos, dado o recesso dos times profissionais, e elegem esse torneio como o esquenta para a temporada de imbecilidades que está por vir.
A Copinha é um torneio de garotos que acabaram de sair da adolescência. O que dizer então desse torneio infantil, do sub-15? Esses jogadores que foram constrangidos e moralmente violentados em Votorantim acabaram de sair da infância! E aí não são as organizadas. Duro dizer, mas o problemas são os pais, os parentes, as varejeiras que circundam os meninos na esperança de que um dia sejam seu bilhete premiado. Há miséria humana aí, e da grossa.
Eu já vi isso quando garoto dentro de campo. Vejo isso agora, de fora, como pai e tio de moleques que jogam bola. A regra nas arquibancadas dos torneios, sejam eles em clubes de elite apenas recreativos ou escolinhas com foco em formação para o nível profissional, é a histeria, a falta de educação, de noção, de respeito ao outro. E, fundamentalmente, de, zelo à infância, à adolescência, de cuidado com essa fase crucial da formação do caráter do ser humano. Levam o inferno até as crianças. Aquilo é apenas um jogo, uma diversão, em sua essência. Mas, em ambos os casos, essa turma que está do lado de fora insiste em mostrar aos meninos o que há de pior no ser humano.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.