Jornal Cruzeiro do Sul
Eric Mantuan
O historiador Jesse James e parte do acervo salvo por seu pai - FÁBIO ROGÉRIO
A cidade de Votorantim, que completa nesta sexta-feira (8) seu 54º aniversário de emancipação, é o berço do futebol na região. Essa história, iniciada no final do século retrasado, porém, hoje vive apenas nos últimos sinais deixados pelo pioneiro clube, o Sport Club Savoia -- chamado de Clube Atlético Votorantim (CAV) após 1942, por força da Segunda Guerra Mundial --, e no trabalho de alguns pesquisadores que não o deixam morrer. Pouco mais de dez troféus, recolhidos do lixo, e parte da documentação dos ex-atletas é tudo o que resta do clube passados 117 anos de sua fundação.
O historiador Jesse James dos Santos é o responsável por dar prosseguimento à tarefa do pai, João dos Santos Júnior -- cronista esportivo do jornal Cruzeiro do Sul na década de 1960, primeiro presidente da Liga Votorantinense de Futebol (Livofu) e que tinha o sonho de instalar, em Votorantim, um Museu do Futebol. Para isso, ele reuniu fotografias, revistas, recortes de jornal e tudo o que pudesse servir como referência histórica sobre o assunto. E descobriu, desta forma, que se começou a jogar futebol na região a partir de 1893, graças ao inglês William Snapp -- que naquele ano assumiu o cargo de gerente da Fábrica de Tecidos Votorantim.
As pesquisas de João dos Santos apontaram ligações de Snapp com Charles Miller, considerado o "pai" do futebol no País: ambos integraram, na capital, o São Paulo Athletic Club (SPAC). "E aqui, os gerentes e funcionários de maior patente da Votorantim passaram a jogar futebol, críquete e boliche, dando início ao Votorantim Athletic Club. Por sua vez, os operários formaram uma equipe de futebol para concorrer com a deles, batizando-a de Savoia, em referência às suas raízes italianas e à Casa de Savoia", relata Jesse. A data de fundação oficial é 1º de janeiro de 1900.
Em 1905, com o surto da febre amarela, os ingleses deixaram a região e o Savoia assumiu o lugar do Votorantim AC. Dois anos antes surgiram as primeiras equipes de Sorocaba: o Clube Atlético Sorocabano e o Estrada de Ferro União Sorocabana e Ytuana (EFUSY). Grandes nomes começam a surgir nos quadros do Savoia: os irmãos Fazolim e Filó, recrutados mais tarde pelo Palestra Itália, a exemplo do clã Imparato -- Gino, Ernesto e Gaetano, entre outros.
Decadência e fim
Após a mudança de nome, o Clube Atlético Votorantim ainda foi referência no futebol local por dez anos. Nessa época, despontou o meia-atacante Mickey, cobiçado por Corinthians e Flamengo -- e que recusou ambos os convites em favor das garantias oferecidas pelo clube local e pelo seu emprego nas Indústrias Votorantim. A equipe disputou a divisão de acesso do Paulistão entre 1948 e 1952, até que a Votorantim retirou o subsídio à equipe. Liberados, os atletas do CAV formaram a base do São Bento, que se profissionalizava, e inscreveu-se no Campeonato Paulista pela primeira vez na temporada seguinte (à exceção de Mickey, que transfere-se para o CA Ituano e chega ao Azulão em 1956).
Com o fim do futebol do CAV, seu acervo de troféus, documentos e fotografias ficou trancado por muitos anos na sua sede. Até um dia, nos anos 1990, em que João dos Santos Júnior foi surpreendido por um telefonema: parte do material fora descartado em um lixão. "Os troféus foram colocados para fora do prédio. As pessoas passavam na rua e levavam embora", relembra Jesse, com tristeza, vislumbrando o dia em que os objetos salvos por seu pai e por outro historiador da cidade, Primo Fidêncio Filho, possam ser disponibilizados ao público.
História do Palmeiras passa pela cidade
A história de um dos maiores clubes de futebol do País, o Palmeiras, está ligada ao futebol de Votorantim. Foi no bairro da Chave, em 24 de janeiro de 1915, no estádio Castelão, que o Palestra Itália fez o seu primeiro jogo. O acontecimento é descrito pelo radialista e pesquisador Gerson Júnior, um dos que se preocupam com a combalida memória do Savoia na cidade.
A Taça Savoia é a primeira conquistada pelo Verdão. Foi num amistoso em Votorantim - ARQUIVO PESSOAL/GERSON JÚNIOR
Fundado cinco meses antes, o Palestra buscava um adversário de importância na colônia italiana para debutar nos gramados, e tomou conhecimento dos feitos votorantinenses pela imprensa da capital. "Eles não queriam estrear contra qualquer um: havia de ser um time italiano, mas forte. Então deu-se o confronto do time das Indústrias Matarazzo com o das Indústrias Votorantim", pontua. A delegação palestrina chegou a Sorocaba de trem e, após desembarcar na estação da Sorocabana e realizar uma visita ao jornal Cruzeiro do Sul, embarcou em nova viagem, agora pela Estrada de Ferro Votorantim (EFV), até o local da partida.
O Palestra levou a melhor e venceu por 2 a 0, iniciando sua trajetória de vitórias com Stilitano; Bonato e Fúlvio; Pollice, Bianco e Vale; Cavinato, Fischi, Alegretti, Amílcar e Ferre. Defenderam o clube votorantinense Colbert; Ferreira e Silvestrini; Gigi, Zecchi e Fredich; Imparato, Cardoso, Ferreira II, Imparatinho e Pinho. Os gols, ambos em cobranças de pênalti, foram assinalados por Bianco e Alegretti. O vencedor levou consigo para São Paulo a Taça Savoia, primeira da sua galeria de troféus. No duelo entre os segundos quadros, deu Savoia: 4 a 0.
Os jogadores do Palestra Itália foram recebidos "com pompa e circunstância" no estádio Castelão - ARQUIVO HISTÓRICO/S.E. PALMEIRAS
Rua Savoia
Uma placa comum, de rua, é a única lembrança desse histórico fato naquela região: "rua Savoia". O Castelão foi desmanchado em 1924, quando o clube inaugurou sua nova praça esportiva -- e que hoje leva o nome de Estádio Municipal Domênico Paolo Metidieri. Em seu terreno, a Votorantim construiu mais um lance de casas para os operários da fábrica de tecidos, que se dissociam das demais (mais antigas) pelas diferenças na fachada.
A área onde ficava o antigo estádio Castelão hoje abriga um lance de casas dos operários da Fábrica Votorantim - REPRODUÇÃO
Gerson torce para que, um dia, o local esteja marcado por um memorial ou outro instrumento apontando ter existido, ali, um estádio de futebol. "A história de Votorantim é rica, mas é imaterial", resume.
Estátua traz consigo lendas e histórias
A estátua de um atleta do Savoia que enfeita o Estádio Municipal Domênico Paolo Metidieri é cercada de histórias. Segundo o pesquisador Jesse James dos Santos, a resposta para uma dessas lendas está no peito do jogador. Ou melhor, dentro dele. "Dentro da estátua há uma garrafa, contendo uma carta do seu construtor. Em uma das restaurações, essa garrafa foi aberta, revelando que tratava-se de uma homenagem ao jogador Florêncio Picelli", garante.
A obra do escultor Galileu Gagetti homenageia Florêncio Picelli - ERICK PINHEIRO
Outra versão, bastante popular entre as crianças da época, dá conta de que seria homenagem a um goleiro que morreu após defender um chute muito forte.
Feita em 1923 pelo artista Galileu Gagetti, essa estátua esteve sobre a primeira sede do clube -- conhecida como "Casa do Jogador" -- por 58 anos, à beira do antigo lenheiro de locomotivas do bairro da Chave. Levada pela grande enchente de 1982, foi encontrada longe dali, bastante danificada, tendo sido recuperada pela primeira vez. Em 2001, ganhou um segundo restauro e passou para o local atual.
Gerson Júnior lamenta as transformações no estádio: "Mutilado" - ERICK PINHEIRO
Da praça esportiva do Savoia na atual avenida Newton Vieira Soares, e que ocupava uma área de 40 mil m2, resta a arquibancada, inaugurada em 28 de setembro de 1924 com o jogo Savoia 4 x 4 Paulistano. O gramado, onde atuou Arthur Friedenreich, o maior jogador de futebol da época, fora deslocado para permitir a construção do terminal de ônibus e de galerias comerciais. Piscinas e outras dependências foram demolidas. "O estádio foi mutilado", reclama o pesquisador Gerson Júnior.