Manoel Peres Sobrinho*
Neste ano de graça de 2010 importa, irmão, redescobrir com casta fúria os dias do tempo inédito e velar, qual pastor severo, pela carne do homem ameaçado. Importa, irmão, conquistar, palmo a palmo, as praias do mutilado reino e proclamar sem peias o sol fraternal da comum areia. Importa, irmão, ousar sem medo a palavra própria do pessoal testemunho e recriá-la no gesto puro do amor sem fronteiras. Importa, irmão, crer que Ele faz sempre novas todas as coisas e traça rotas no deserto e sendeiros na solidão. Importa, irmão, saber enfim que Ele se fez menino e homem pobre e levantou sua provisória tenda entre todos nós para que todo tempo fosse tempo de graça e conciliação e toda paz seja dada a todo homem de boa vontade – J. Jerkovic.
No começo do século passado éramos visitados por uma filosofia, dentre tantas outras, que parecia pôr fim ao demasiado estulto daquilo que há no homem como ser à procura de sua própria identidade. Tendo por pai Auguste Comte (1798-1857), o filósofo francês, que definia "positivo" como real, útil, certo, preciso, relativo, orgânico e simpático, estabeleceu como idéia-chave do positivismo comtiano a Lei dos Três Estados, de acordo com a qual o homem passaria por três estágios evolutivos: o teológico, no qual apelaria para entidades supranaturais para explicar a realidade, assim criando "deuses" e entidades espirituais; o metafísico, colocando no lugar dos "deuses" entidades metafísicas como o "éter", etc. Por último, chegaria ao estado positivo onde desvendaria as leis naturais, subordinando a imaginação ao observável e buscando apenas o concreto na realidade objetiva. Como influência no Brasil, deixou o lema Ordem e Progresso em nossa bandeira, inspirado pelo lema de Auguste Comte do positivismo: L'amour pour principe et l'ordre pour base; le progrès pour but ("Amor como princípio e ordem como base; o progresso como meta"). Representação das aspirações de uma sociedade justa, fraterna e progressiva.
No entanto, essas aspirações mostraram-se frágeis demais quando uma avalanche de situações não previstas levou nossa sociedade ocidental à uma verdadeira hecatombe, com duas grandes guerras e deixou o planeta inteiro minado em suas certezas apocalípticas. Numa síntese apropriada, um sociólogo, assim definiu o nosso século no que tange às suas crenças e comportamentos. Vivemos um estado de secularismo: o mundo moderno é fruto de um projeto dessacralizador, com a perda do encanto (mistério) da natureza, a natureza como estando a serviço do homem, autonomia contra a teonomia, religião do progresso. A pessoa desenvolveu mais o individualismo do que o social: o sentido da vida é a busca individual da felicidade, busca da felicidade a qualquer preço, irracionalidade das decisões e gostos, horror ao silêncio, baixa auto-estima, consumismo como estilo mesmo de vida, criação de necessidades de consumo inexistentes, obsolescência planificada, objetos feitos para durar pouco, pansexualização da vida, moral sexual do prazer e não da procriação, voyeurismo: o prazer de ver, culto ao corpo e à juventude. Expandiu sua experiência mas perdeu em profundiade, voltando-se para um estado de superficialismo mórbido: os conflitos têm que ser superados a qualquer preço, utilitarismo pragmático: deve-se fazer o que se pode fazer, banalização dos relacionamentos e das experiências, permanência acrítica de mitos, exacerbação da ansiedade. E, por último, o inevitável pluralismo. As expressões religiosas não foram banidas, permanência das religiões tradicionais, fim do exclusivismo católico, surgimento dos novos movimentos religiosos, mobilidade da membresia, espiritualidade prática, resposta às transformações sociais rápidas.
No início do século XXI, o quê nos reserva o futuro? Difícil saber. Mas é certo que a tendência humana é sempre de se superar de uma geração para outra; sempre avançando na procura do fim último de sua existência: que é a felicidade. Afinal, algumas tendências já se mostram promissoras como possíveis candidatas hipotéticas. Vivemos um tempo de profunda valorização da religião de todos os credos e práticas: das tradiconais às exóticas; uma exacerbação da ímportância da ciência como possível messias da humanidade; um desprezo pelo planeta, sem precedentes, sem planejamento no uso das fontes não renováveis; além de uma desarrazoada busca de resultados no campo profissional.
Seja como for, a verdade é que a humanidade, por muito tempo, ainda caminhará tateando em busca do que imagina que procura. A crença fundamental de nosso século é que o objetivo da vida é a felicidade. E esta tem que ser conseguida a qualquer preço, mesmo ao custo de um eclipse total da razão. Assim, para que o homem frua a vida, os conflitos reais têm que desaparecer, seja à base dos analgésicos e das drogas, seja no êxtase religioso, seja no frenesi da festa, seja no divã do analista, seja na cama do motel. A liberdade tem um preço e pode custar a própria existência.
(*O autor é Mestre em Educação, Arte e História da Cultura, pela Universidade Presbiteriana Mackenzie).
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