Política para cristãos e consciência crítica
Manoel Peres Sobrinho*
Às vésperas das eleições, nenhum cristão que leve a sério sua fé poderá ficar isento de uma reflexão profunda sobre este importante assunto. Isto porque o cristão não é uma criatura passiva diante dos fatos; pelo contrário, o Cristianismo é força motivadora das grandes transformações históricas e sociais. O cristão é agente que tem sempre em mente o desejo de subverter a ordem, isto é, no sentido de encontrar um melhor caminho para toda e qualquer situação. Uma melhor resposta e solução para resolver os mais intrincados problemas. Um cristão apático, alienado ou ausente, na verdade não é um cristão, mas, sim, um covarde travestido de santo. O cristão verdadeiro assume o seu tempo com todas as suas transformações, com todos os seus desafios, com todos os seus embaraços e enganos. Não espera o tempo melhorar para depois agir na esteira das facilidades gratuitas; antes, aponta caminhos e soluções, responsabilizando-se, é claro, por todos os resultados. Não se esconde, mas assume seus erros e, assim, conquista os seus acertos e vitórias. O cristão é um ente motivador de uma contracultura, disseminado a fé como gestor de uma nova realidade, estabelecendo um novo status quo. Está sempre na vanguarda. Por enquanto que os cristãos assumiram a praticidade de sua fé (recordando-nos, diante do nosso Deus e Pai, da operosidade da vossa fé, da abnegação do vosso amor e da firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo – 1 Tessalonicenses 1:3), práxis esta que levava a sério a oração, mas também, na mesma intensidade e respeito o trabalho responsável, foram fecundos, entusiastas e empreendedores em suas realizações sociais, transformando-se em fermento que ia levedando toda a massa social; entretanto, quando se recolheram às quatro paredes de uma vida monástica, contemplativa eximindo-se dos seus mais sérios e elementares deveres, o caos tomou forma e lugar e a religião transformou-se no ópio da comunidade. O Brasil de hoje é o resultado híbrido de uma classe política irresponsável (em todo o seu peso amplitude semântica) e um cristianismo deformado e alienado. O problema não está no Cristianismo, por si só, mas na péssima qualidade de cristãos que este país gerou. Aqui a religião transformou-se numa ideologia para o proselitismo a qualquer custo, suporte para o poder exacerbado e o enriquecimento ilícito e fraudulento. Temos como orientação segura, longe dos embaraços de uma religião piegas, pietista e espiritualista, voltada somente para o celeste porvir e à contemplação nirvânica o que por si só já é um sacrilégio ao Cristianismo autêntico e responsável, a informação bíblica de que a preocupação com os homens da política é salutar e, mais do que isso, é tema espiritual e motivo para as mais ardentes e sofridas orações. Antes de tudo, diz o apóstolo Paulo, exorto que se use a prática de suplicas, orações, intercessões, ações de graça, em favor de todos os homens, em favor de reis e de todos os que se acham, investidos de autoridade, para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda a piedade e respeito – 1 Timóteo 2:1-2. Quer queiramos ou não, a política ainda é a ARTE DE BEM GOVERNAR e, por isso, mesmo, ainda que frustrados pela má atuação de políticos interesseiros, irresponsáveis, medíocres e corruptos; todavia, não devemos deixar apagar a chama da esperança, buscando participar com o voto consciente e sincero. O cristão tem um chamado para ser sal e luz. Tem uma vocação cosmopolita, isto é, ele é um cidadão do mundo, com todas as suas implicações e exigências. A transformação de uma situação social só se dá quando aqueles que acreditam na verdade, na justiça, na probidade, no vigor da lei e, sobretudo, nas boas intenções de homens honestos, tomam decisões certas na hora certa. O voto é, por todas as vias, o direito que damos a um grupo de homens para governar em nosso nome e nosso lugar. O que eles fazem é como se nós estivéssemos fazendo. Sendo que todo poder emana do povo e em seu nome é exercido. Alguns cuidados são sempre salutares. A maior impostura é pretender governar os homens sem ter capacidade, dizia Xenofontes o historiador grego ateniense, nascido em 427 e morto em 355 a.C. Por outro lado, Aristóteles (384-322 a.C) afirmou que um Estado é governado melhor por um homem bom que por boas leis. Sábio pensamento do filósofo estagirita. O pior governo, dizia Montesquieu (1689-1755), é aquele que exerce a tirania em nome da lei. Por tudo o que já foi dito é bom saber que em face à má atuação de um governo legitimamente constituído cabe protesto que também é legítimo, correto e necessário. Protesto este que poderá vir na forma documental, com o abaixo assinado; ou ainda, de forma mais ostensiva, através da greve. Fazendo isso o povo demonstrará ao seu governante que a sua atuação política já não é a exata expressão dos seus desejos, direitos e necessidades.
(*O autor é mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universiade Presbiteriana Mackenczie).
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