Manoel Peres Sobrinho*
Eu cheguei em frente ao portão/Meu cachorro me sorriu latindo/Minhas malas coloquei no chão/Eu voltei!...//Tudo estava igual como era antes/Quase nada se modificou/Acho que só eu mesmo mudei/E voltei!..//.Eu voltei!/Agora pra ficar/Porque aqui!/Aqui é meu lugar/Eu voltei pras coisas/Que eu deixei/Eu voltei!...//Fui abrindo a porta devagar/Mas deixei a luz/Entrar primeiro/Todo meu passado iluminei/E entrei!...//Meu retrato ainda na parede/Meio amarelado pelo tempo/Como a perguntar/Por onde andei?/E eu falei!...//Onde andei!/Não deu para ficar/Porque aqui!/Aqui é meu lugar/Eu voltei!/Pras coisas que eu deixei/Eu voltei!...//Sem saber depois de tanto tempo/Se havia alguém a minha espera/Passos indecisos caminhei/E parei!...//Quando vi que dois braços abertos/Me abraçaram como antigamente/Tanto quis dizer e não falei/E chorei!...//Eu voltei!/Agora pra ficar/Porque aqui!/Aqui é o meu lugar/Eu voltei!/Pras coisas que eu deixei/Eu voltei!.. – Portão - Roberto Carlos / Erasmo Carlos.
Depois de 50 anos aqui estou eu encarando meu passado e uma infância feliz. Diante da placa, de um azul que lembra azulejos portugueses está o nome da Rua; à direita a casa do Minoso; à esquerda há um senhor de idade no portão com quem converso. Não sabe muito das transformações aqui ocorridas. O que guardo na memória é que o tempo deve recuar até fins da década de 1950. As casas rigorosamente iguais, com um grande telhado a se estender sobre todas as construções, deunciam que todos são funcionários da fábrica, seguem seus horários rígidos, mantém uma rotina diária e esperam, quem sabe, um dia melhorar de vida pra exibir pro vizinho. O patrão não somente disciplina seus corpos, mas também sua liberdade, seus sonhos e seus ideais. Agora, isso tudo não existe mais. Só há alguns parcos vestígios dessa antiga uniformidade social. Cada um faz da sua casa como entende melhor. As casas já não são de tijolos à vista à moda inglesa; a rua asfaltada já não recebe mais vacas soltas que caminham indolentemente seguindo para a cachoeira; as construções não seguem um padrão só, e certamente, as pessoas já não trabalham numa única indústria. Mas a rua tem ainda um mesmo ar, como antes. Talvez, só tenha desaparecido aquela magia infantil do olhar inocente. A Rua do Meio, como era conhecida, tem agora alguns sobradinhos, e a Travessa B, chama-se Rua dos Constitucionalistas, onde residiam o Seu Niceto (ou Nisseto?) massagista e o Seu Cesário de cuja geladeira obtínhamos gelo pra fazer limonada de limão vermelho ou limão rosa.
No segundo quarteirão estava a minha casa. Calçada alta, de onde pulávamos pra cair na areia da Rua. Alguns degraus ajudáva-nos a subir rapidamente para voltar a pular. Quando criança aquela calçada me parecia muito alta de difícil acesso, o que não achei, depois de tanto tempo. Achei ali agora três degraus originais. Pequeninos, desgastados pelo tempo e o uso. Tudo muito diminuto e sem muita extensão. Isso me faz lembrar de Marcel Proust e da sua obra monumental À la recherche du temps perdu (Em Busca do Tempo Perdido), onde descrevre sua casa em Combray. No volume No Caminho de Swam detalha a grandeza de sua residência quando ali vivia na infância e esperava à noite o beijo de despedida de sua mãe, para depois adormecer. Arthur Nestrovski em visita a França, relata que os aposentos de Proust eram até muito pequenos e sem nenhuma expressão como aparece no romance. Aos olhos da criança o horror e a ameaça de um mundo sempre hostil faz com que ela redimensione todas as suas experiências, sejam elas espaciais ou sentimentais, distorcendo a realidade e criando a sua fantasia com o que se aconchega e protege. Morando ali fui me matricular na Escola Mista, da Rua Savóia. E tive como amigo Álvaro Latance que certa feita dividiu comigo seu lanche, visto que morava bem perto da escola na mesma Rua. Um bom garoto, bom coração. Além dos sonhos infantis dividiu também o pão. Abençoado seja!
Como vizinhos, bons vizinhos, tive a bênção de compartilhar o espaço com o Seu Raul dos Santos, dona Helena, o José, a Cida, a Maria e a Lúcia. As crianças rigorosamente, tomavam banho às 5 horas da tarde. E lá aparecia depois o José no tanque contíguo, ao nosso, de roupa limpa e cabelinho molhado e penteado. Eu achava aquilo uma preciosidade. Uma disciplina e ordem familiar que dava gosto. Seu Raul se candidatou várias vezes a vereador, mas nunca ganhou. O que é lamentavel. Um homem bom, religioso, com uma linda família, certamente teria sido um bom político e a cidade em muito iria ganhar. Mas vá entender as pessoas. Parece que gostam de viver sempre sendo enganadas.
A Travessa C, hoje Rua Galileu Gagetti, guarda uma recordação fantástica de como situações frugais podem mexer com o nosso imaginário e se perpetuar como um tesouro a ser relembrado com imensa gratidão. Sempre que chegava o tempo de Natal, um senhor que mantinha ali na esquina um comércio de variedades e muito doce pra meninada, gostava de armar um presépio muito bem arrumado. Um espelho no fundo, fazia como se fosse água, um pouco de areia à sua margem. Os animais no começo distantes da mangedoura, com o tempo iam sendo aproximados como se estivessem caminhando até chegar onde estava o menino Jesus. A estrebaria de palha, os animais ao redor, José e Maria, e no centro o menino Jesus. Tudo com muito gosto e especial delicadeza. Eu ficava tempo olhando e admirando aquela imagem linda e angelical dos santos personagens do Natal.
(*O autor é mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universiade Presbiteriana Mackenczie).
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