Notícia publicada na edição de 06/05/2011 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 1 do caderno C
Alunos do projeto Educação para Jovens e Adultos se encantam com a sétima arte; muitos nunca tinham entrado em uma sala de cinema
José Antônio Rosa
Acompanhada pelo neto, a doméstica Maria das Dores dos Santos, de 84 anos, assistia pela primeira vez a um filme no cinema e achava ¿tudo maravilhoso¿ - Por: Fábio Rogério
O sonho da faxineira Vanilda Firmino, de 51 anos, era poder, um dia, ir ao cinema. Ela que trabalha num shopping da cidade, ficava encantada toda vez que via os cartazes dos filmes da sala exibidora em frente da qual executa, diariamente, serviço de limpeza. Chamavam-lhe a atenção o colorido, as fotos dos astros, alguns dos quais ela mal sabe dizer o nome. "Tudo é muito lindo", comenta Vanilda, que só tinha ideia sobre como era um cinema pela televisão. "Eu nunca tive a oportunidade de assistir de perto. Primeiro, o trabalho; depois, a filharada que chegou."
Na quarta-feira à noite, Vanilda e outros cerca de 50 alunos do projeto Educação para Jovens e Adultos (EJA), desenvolvido dentro das escolas "Profª Edith Maganini" e "Prof. Walter Rocha de Camargo", ambas da rede municipal de Votorantim, tiveram contato, pela primeira vez na vida, com a chamada sétima arte. Por coincidência, a fita escolhida foi a animação "Rio", que o brasileiro Carlos Saldanha (de "A Era do Gelo"), rodou para os estúdios Fox. Era justamente esse o longa que Vanilda queria assistir. "Vi a propaganda e fiquei curiosa para saber como é", contou.
Nem todos do grupo que esteve no Cine Panorâmico, atividade que o Mais Cruzeiro acompanhou, debutavam como espectador de filmes. Diretora do Departamento do Ensino Supletivo e Profissionalizante, Sueli Patrocínio da Silva Araújo explicou que o curso discute, no momento, o tema "A Indústria e os Meios de Comunicação". Dentro desse painel, acontece a abordagem das questões ambientais. "Rio", conforme a coordenadora, tem, também, um viés ecológico, já que fala de espécies da fauna ameaçadas de extinção.
Paralelo aos objetivos pedagógicos, a ida ao cinema comprovou, na prática, o poder transformador da arte. Moradores de bairros como Vila Nova, Vossoroca e Pró-Morar, entre outros, os alunos não escondiam o entusiasmo. Já na chegada ao cinema, falavam da expectativa. "Deve ser assim uma coisa do outro mundo de tão bonita", avaliou Generosa Batista. Carpinteiro de Indaiatuba, que ainda portava o crachá funcional (ele segue do trabalho direto para a escola), Sebastião de Souza, olhava curioso o interior da sala de exibição. "É grande, não? Eu pensava que fosse menor."
As pessoas que conversaram com a reportagem apontaram motivos diversos para nunca terem ido ao cinema. Nenhuma, curiosamente, usou a condição socioeconômica como justificativa. Vale dizer: a pobreza não foi, ao menos para os personagens desta matéria, fator impeditivo. Ficou claro que existe uma distância que separa o público das expressões artísticas; vencê-la, ou diminuí-la, no entanto, e ao contrário do que se pensa, depende apenas de boa vontade. "Não é só preço do ingresso que impede o público de consumir cultura; é preciso, antes, ficar claro que esse é um direito que tem de ser assegurado. Todos têm de ser informados, conhecer, aprender, se permitir descobrir outras realidades", disse a professora Sueli.
É o que também pensa a doméstica Maria das Dores dos Santos, de 84 anos. Acompanhada pelo neto, ela contou que achava "tudo maravilhoso". Com certa dificuldade para se locomover, enxergando mal, Maria das Dores irá guardar o momento como um dos mais importantes de sua existência. "Eu gostei de ver o colorido dos bichos, ri bastante", contou. Francisca Venício dos Santos Teixeira, 31, também ficou sob o efeito do encantamento. "Se eu soubesse, teria vindo antes. Nunca fui ao cinema por falta de oportunidade mesmo. Agora, não paro mais."
Ildete Ribeiro gostou da trama mostrada no desenho. "É uma história bonita. Faz a gente pensar que os bichos precisam ser respeitados. Eu já vi tanta arara, mas nunca podia imaginar que elas sofressem tanto. Aprendi mais." Cada um dos novos cinéfilos assimilou, a seu modo, a experiência. Disseram que se sentiram melhor, integrados e até que exerceram a cidadania. Ficou, também, o gostinho de quero mais. Foi o que conclui a faxineira Vanilda. Emocionada, ela manifestou, ao final da sessão, outra vontade: "Quero, agora, assistir a uma peça de teatro!"

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