José Antonio Rosa
Performances em novembro marcaram a "inauguração" da pedreira como espaço cultural - Por: DIVULGAÇÃO / EDESON SOUZA
Votorantim pode ser incluída entre as cidades criativas, como são chamadas aquelas que aproveitam o potencial (econômico, inclusive) dos próprios espaços urbanos para a realização de projetos e atividades culturais que agregam valor. Tudo isso por causa de uma pedreira abandonada lá que, depois de servir de palco para performances artísticas e um seminário em novembro (atividades organizadas pelo Coletivo de Dança O 12), se transformou numa espécie de referência local do conceito.
O grupo estará lá novamente hoje, para promover, agora, um piquenique. "Será um piquenique comunitário. Estamos convindando pessoas pra ir pra pedreira, levar comidinhas, tecidos pra estender no chão e histórias que elas saibam sobre a pedreira pra compartilhar", explica Preta, do Coletivo O 12.
A atividade pretende despertar ainda mais o interesse da comunidade e conta, de novo também, com a participação da economista Ana Carla Fonseca Reis, consultora das Nações Unidas e estudiosa do tema. Ana Carla é autora do livro "Cidades Criativas e Perspectivas", coletânea de textos de pesquisadores de dezoito países. De Belo Horizonte, onde participaria de uma conferência, ela conversou com a reportagem.
Ana Carla e os integrantes do O 12 compartilham da mesma paixão pelo tema. Conheceram-se num seminário promovido dentro da programação do São Paulo Fashion Week e, desde então, criaram um elo que transcendeu o interesse acadêmico. "Eles (os bailarinos) são bons incendiários de ideias. Têm a incrível capacidade de propor e executar ações com um raro dinamismo. Quando soube do projeto da pedreira fiquei igualmente entusiasmada e vi que, ali, existiam amplas condições de desenvolver aquilo que estudávamos e estudamos."
Na verdade, mais do que aproveitar espaços, o conceito busca chamar a atenção para a mudança do perfil da cidade e de seus equipamentos. O caso de Votorantim é emblemático, conforme Ana Carla. Até pouco tempo, a pedreira era mais um local abandonado, que favorecia a toda sorte de situação, menos aquela mais indicada. Os próprios moradores da região pouco sabiam a esse respeito e só foram se dar conta quando estiveram no encontro organizado pelo coletivo de dança.
A consultora que foi uma das palestrantes do evento confirma que muita gente ficou surpresa ao enxergar o espaço com outros olhos. "Parece que, felizmente, todos se deram conta de que ali havia mais do que mato e sujeira." A pedreira, acreditam Ana Carla e os bailarinos do grupo, tem tudo para ser o primeiro de uma série de espaços a serem aproveitados dentro do conceito de cidade criativa.
Na prática, conforme a pesquisadora, esses lugares não geram retorno imediato, ou seja, não se pretende, ali, desenvolver algo com o fim de gerar receita. "A intenção vai além disso; a ideia é que esse tema conste da agenda de governo e possa ser implementado enquanto política pública. Todas as cidades almejam ser como Barcelona, Hong Kong, Cingapura, que incorporam noções educadoras, culturais. O problema é que poucas, infelizmente, permitem-se ao menos conhecer o funcionamento desses mecanismos e administram arquipélagos de bairros. O trabalho do O 12, por isso, é como uma porta de entrada à possibilidade de ousar."
Ana Carla citou ainda o exemplo do município de Apiaí, no Vale do Ribeira, região do Estado de São Paulo com elevadas carências sociais, no qual jovens ocupavam-se depredando um prédio público. O prefeito, então, teve a ideia de transformar o local numa oficina de pintura. "Hoje, ele não só economiza com a manutenção e os reparos, como mantém os adolescentes envolvidos com algo que irá acrescentar muito ao seu futuro. O lucro, portanto, neste caso, foi a reinserção."
Ana Carla e o coletivo O 12 esperam ver a proposta ampliada. Admitem a possibilidade de organizar um fórum em nível regional para debater o tema e sensibilizar mais governantes. "Não é de todo impossível, mas também, faz-se indispensável obter a adesão e o apoio das autoridades. A cidade criativa pode começar pelo aproveitamento de uma pedreira, mas também dispõe de outros equipamentos como praças, prédios, ruas e logradouros. É só somar esforços para alcançar o objetivo", conclui a pesquisadora.
O formato do piquenique coletivo que o O 12 realiza quer estabelecer novas maneiras de relacionamento entre os cidadãos e a cidade. Para descobrir as histórias e desejos que as pessoas têm, o espaço estará aberto à intervenção dos participantes. A atividade acontece entre 17h e 19h, à rua Humberto Della Pache s/nº, no Jardim Icatu. A entrada é franca. Além das histórias, comes e bebes que quem for deve levar, o evento contará com apresentação artística especial. Será, também, comemorado o nascimento da AVA (Associação Vuturaty Ambiental). Os interessados em conhecer o trabalho de Ana Carla Fonseca Reis, pode acessar o site www.garimpodesolucoes.com.br.

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