sexta-feira, 2 de março de 2012

ÀS MARGENS DE ITUPARARANGA - Mario Maciel: O Curupira de Itupararanga


 Notícia publicada na edição de 02/03/2012 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 004 do caderno C 
José Antônio Rosa



Usando a criatividade em prol da natureza, ambientalista já recebeu em seu sítio visitantes de 59 cidades, 14 Estados e 3 países


 - Por: Adival B. Pinto





 Cada pedaço visitado, cada parte parece guardar uma história. Uma árvore caída, por exemplo, tem um significado maior. É o caso de ¿Marieta¿, como ele chama uma árvore que cedeu à ação do tempo e morreu. O tronco caiu e ficou envolvido pela terra. Ao se decompor, dele brotaram folhas e outros galhos. Mário acredita que Marieta possa ter mais de 500 anos de idade. ¿Ela deve ser tão antiga quanto o Brasil¿ - Por: Adival B. Pinto


 - Por: Adival B. Pinto
 No meio da trilha, uma família de ET; segundo Mario Pereira Maciel, para alegrar o passeio das crianças - Por: Adival B. Pinto



Em Santana do Parnaíba, de onde se mudou para Alumínio há cinco anos, Mario Pereira Maciel chegou a ficar acorrentado durante mais de trinta dias em protesto contra o que considerava serem desmandos do governo da cidade. Sua militância fez com ficasse conhecido por lá como "o pesadelo" dos maus políticos. Entre outras coisas, ele encampou causas em favor de animais abandonados, defendeu contribuintes, interveio para pedir melhorias públicas (como asfalto e reforma de prédios) e denunciou abusos. Assediado por partidos, não quis assumir ou disputar cargos, nem aderir a "esquemas".

Herdeiro de um sítio no bairro de Areia Branca, também em Alumínio, colocou em prática o projeto de construir o seu próprio recanto. O terreno, de quase um alqueire, faz divisa com a represa de Itupararanga e foi transformado num santuário a partir de ações ecologicamente corretas. Mário é um dos muitos personagens cujas histórias inspiraram o fotógrafo Adriano Ávilla a montar uma exposição com imagens do reservatório e de moradores das comunidades que ficam no seu entorno.

O Mais Cruzeiro visitou, na terça-feira, o local. Acompanhado de Adriano e do músico Nilson Antunes, conhecido como "Toronto da Gaita", conversou com o agora ambientalista. Mário Maciel trabalhava quando avistou a reportagem. Imediatamente deixou o que fazia para, entusiasmado, contar como fez para implantar aquilo tudo. Habituado a receber grupos, ele começa caminhando pela trilha que corta o imóvel. A área possui nascentes naturais e, para aproveitar esse potencial, Mário construiu nove tanques onde cria peixes, plantou e cultiva quase 30 espécies de flores e exemplares da flora silvestre. Com sorte, o visitante pode se deparar com tucanos, quatis e outros bichos.

A propriedade é um exemplo bem sucedido do uso correto da responsabilidade ambiental. De maneira artesanal, Mário Maciel revestiu os tanques com blocos feitos de garrafas pet e caixas de leite longa vida. Para produzir os "tijolos", usou restos de materiais que retirou de construções ou que recebe de pessoas que o conhecem. Assim, enche os recipientes com a massa para, depois assentá-los.

O curioso é que Mário não possui formação acadêmica alguma. "Aprendi com a vida", contou. Antes de cuidar do terreno, Mário trabalhou como funcionário de uma indústria. "Eu não sabia nem atender ao telefone direito. Falava pelo lugar em que se deve escutar. Devo ter sido motivo de chacota de muita gente", lembra. O que determinou a mudança foi a descoberta da biblioteca local. "Li de tudo que me caiu às mãos. Livros de engenharia, de física, filosofia, literatura clássica, ciência política."

Mário Maciel se expressa com uma fluência e clareza que impressionam. Fala com desenvoltura e conhecimento para explicar os mecanismos de aproveitamento da água dentro do sítio. Todos os tanques são abastecidos por dutos e se interligam, de modo a evitar a erosão do solo. "A água segue por passagem subterrânea e é reaproveitada", ele explica. Detalhe: ela é, também, potável, de uma pureza própria das fontes minerais.

Um dos reservatórios contém água ferrosa, que, segundo alguns, apresentaria propriedades medicinais. Mário permitiu-se ao requinte de espalhar pelos caminhos aparelhos que divertem as crianças. São bonecos de personagens como ET e Shrek. Num outro canto do lote, fez uma gruta com a imagem de Nossa Senhora Aparecida, mas destaca que o espaço é "ecumênico". Uma visita ao local comandada por ele pode durar muito tempo, tamanho é o carinho que devota à natureza.

Mário batizou o recanto com o nome da mãe, Engracia Carraco. Cada pedaço visitado, cada parte parece guardar uma história. Uma árvore caída, por exemplo, tem um significado maior. É o caso de "Marieta", como ele chama uma árvore que cedeu à ação do tempo e morreu. O tronco caiu e ficou envolvido pela terra. Ao se decompor, dele brotaram folhas e outros galhos. Mário acredita que Marieta possa ter mais de 500 anos de idade. "Ela deve ser tão antiga quanto o Brasil." Numa propriedade vizinha, que ele inclui no roteiro da visita com autorização dos donos, uma cachoeira chama a atenção. Ao lado dela, uma pedra serve de passagem. O cenário se completa com um galho de árvore em forma de forquilha. Mário Maciel diz que a natureza foi caprichosa e sentencia: "Quem duvida do poder do Criador, é um otário".

Talvez isso explique porque, desde que foi construído, o santuário já tenha recebido visitantes de 59 cidades, 14 Estados e 3 países. Para dar conta dessa demanda, Mário Maciel passa o dia todo no lugar. "Não saio daqui por nada." Ele gosta de receber visitas, principalmente de crianças que participem de projetos de educação ambiental. Não cobra ingresso, mas dispõe de um livro no qual, quem quiser, faz doações. "Já recebi material de construção, mantimento, linguiça, caixa de leite longa vida e até um trocado para manter as despesas."

Ele sonha construir dois banheiros para conforto dos visitantes. "Minha casa é pequena e não dá conta de tanta gente. Vamos esperar que as pessoas contribuam."

O sítio fica na estrada do Karafá, bairro da Areia Branca, e pode ser visitado das 9h às 18h. Mário Maciel não possui telefone. "É só aparecer, se possível em grupos organizados, que a gente recebe com o maior prazer e satisfação. Todos são bem vindos."

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