Rede Bom Dia
Tatiane Patron
Catador de recicláveis morre ao tentar impedir que filha fosse atingida por disparo de ex-companheiro
Uma casa humilde e apertada, mas grande o suficiente para receber mais um integrante para a família Fernandes. O imóvel simples, localizado no Jardim São Mateus, em Votorantim, virou cenário de tragédia em plena Sexta-Feira Santa.
Luiz Carlos Fernandes, 49 anos, trabalhava durante o dia como faxineiro em um shopping center e à noite catava recicláveis pela rua. Esforço para colocar comida na mesa para os cinco filhos.
Na madrugada de ontem foi capaz de algo maior, movido pelo extinto paterno. Ele se jogou na frente da filha, Érica Beatriz Fernandes, 21, e recebeu um tiro no peito, disparado pelo genro Reginaldo Correia de Lima, 31. Aquele para quem abriu as portas do lar e tratou como o sexto filho.
Como pai e filho / Após pouco mais de um ano de namoro, Reginaldo foi convidado a morar na casa dos pais de Érica. Um cômodo de alvenaria foi construído para o casal ter privacidade, enquanto Luiz e a mulher Eliete dormiam em um quarto apertado, de madeira junto com outros quatro filhos.
Luiz sempre foi o “homem da casa”. Os filhos menores de idade apenas estudam. Com a chegada do genro, em novembro do ano passado, ganhou ajuda para trabalhar à noite.
Assim que chegava do primeiro emprego, Luiz saia às ruas para puxar o carrinho e Reginaldo recolhia papelão, metal e plástico que encontrava pelo caminho. A amizade entre sogro e genro era mantida pelo esforço do trabalho.
Na garagem da casa estão quilos de materiais recicláveis. No carrinho, Luiz tinha encontrado espaço para demonstrar a fé e a esperança por dias melhores. Nele está escrito Jesus.
Tragédia anunciada / A família de Luiz sabia que Reginaldo tinha envolvimento com drogas e passado pela cadeia. Mesmo assim, o aceitou de braços abertos.
Há 15 dias, no entanto, o rapaz passou a ter um comportamento agressivo. O vício estaria alterando a personalidade de Reginaldo.
Cansada e já com outro relacionamento amoroso em vista, Érica decidiu colocar um ponto final no primeiro romance. Desde então as ameaças de morte contra a moça passaram a ser constantes. Ela, então, resolveu prestar queixa à polícia.
E a história terminou de maneira trágica na madrugada de ontem quando Reginaldo invadiu a casa da família, com uma arma em punho e com a intenção de matar a ex-companheira. O tiro, no entanto, acertou Luiz que tinha partido em defesa da filha.
Quando o acusado chegou – sob o efeito de entorpecentes, segundo Érica –, a família estava no quarto. Reginaldo arrombou a porta e Luiz, vendo que o rapaz estava armado, jogou nele uma bateria de motocicleta. Mas a bala disparada por Reginaldo e que tinha a moça como alvo foi mais rápida.
As crianças que estavam na casa assistiram a tudo. Um deles, de 17 anos, foi levado como refém, assim como Érica. Eles, entretanto, conseguiram fugir.
Assustados com o barulho do tiro, os vizinhos ligaram para a Polícia Militar que foi atrás de Reginaldo. O rapaz havia se escondido num matagal, não quis se render e começou atirar contra os policiais, que revidaram. Reginaldo foi atingido e morreu a caminho do hospital.
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