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domingo, 15 de abril de 2012

Família revela o homem Ettore Marangoni


 Notícia publicada na edição de 15/04/2012 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 002 do caderno C 
Andrea Alves



Parentes guardam grande parte dos trabalhos do artista, que também fazia outras "invencionices": "Ele era como um professor Pardal"


 Sheibe Marangoni, uma dos três filhos de Ettore, conta qye serviu algumas vezes de modelo ao pai
Foto: Erick Pinheiro
 Uma das marcas registradas dos trabalhos de Marangoni é a presença recorrente de um cachorro
reprodução: Erick Pinheiro

Até a casa onde Ettore Marangoni viveu com sua família era uma obra de arte. Ainda hoje quem passa por uma rua do bairro Trujillo pode ver a escultura que ornamenta a fachada da casa que guarda seus segredos do lado de dentro, onde outra arte engrandece a sala. A casa foi vendida após a morte do avô, conta o neto Lawrence Marangoni, com a condição de que as obras nunca fossem desfeitas. Foi ali que Lawrence viveu grande parte da sua infância. A casa do avô era extensão da sua e foi com o senhor de personalidade marcante que ele absorveu aprendizados que até hoje leva em sua vida e profissão. Lawrence é designer gráfico e embora diga que nem não tem nem um tantinho do talento do avô, admite que emprega em seus criações conceitos do qual o artista se valia. "Uma coisa que tenho dele é o perfeccionismo, mas eu não chego aos pés do que ele foi. Pelos estudos dos quadros é possível ver o quanto ele era dedicado, muito atento aos detalhes. Esses estudos já são verdadeiras obras de arte."

Grande admirador do avô, como se revela, Lawrence criou um site, o www.marangonihein.com.br, com algumas obras de Ettore. "Tentei catalogar parte do acervo dele. Só parte porque é muito grande e além de estar nos museus de Sorocaba e Votorantim, está também com toda família, com amigos. Ele chegou a trocar obras de arte com outros amigos artistas e devem existir obras do Ettore Marangoni em várias partes do Brasil e até do mundo." Lawrence fica satisfeito em contar que um admirador do trabalho do avô, morador do Estado do Pernambuco, corrigiu o nome de uns dos quadros descritos no site. "Fiquei muito feliz em ver alguém se importando em corrigir o nome de uma obra dele, que lá de longe está se interessando em ver Ettore Marangoni."

Na casa de Lawrence e sua mãe, Sleibe Marangoni, uma dos três filhos de Ettore, estão quadros, estudos, escritos e esculturas em bronze tratados como são: relíquias. Estão, entre esses guardados, várias páginas de um livro que Ettore escreveu e concluiu muitos anos antes de sua morte. As páginas amarelas, em uma caligrafia clássica e levemente inclinada, contam a história de Votorantim. Na primeira página, o artista descreve uma cena com escravos, num português que tropeça no italiano - o pintor, que chegou com 8 anos no Brasil e passou alguns anos estudando na Bélgica, falava fluentemente o alemão e o italiano. "Era o sonho do meu pai ver esses escritos virarem livro. Muitos já demonstraram interesse em editar e publicar", revela Sleibe, "mas acabou ficando por isso mesmo".

Os pais de Ettore faleceram logo que chegaram ao Brasil e ele, ainda criança, teve que cuidar dos irmãos. "Ah, era um monte de filho naquele tempo, acho que eram uns 10 irmãos", calcula Sleibe, "e ele se empregou na Fábrica Votorantim para limpar caldeiras, já que era pequeno e conseguia fazer esse serviço. Naquele tempo, podia empregar criança." Filha e neto de Ettore contam que quando ele trabalhava como gravurista na Cianê, onde desenhava as estampas para os tecidos, sua inteligência instigava os ingleses, que ficavam impressionado com tamanho perfeccionismo. "Ele era como um professor Pardal", brinca Lawrence, "ele inventou um buraco na porta para ver quem chegava antes mesmo de existir olho mágico. Fez um projetor de ferro fundido que está exposto no Museu Municipal de Votorantim e parece que fez isso quando era menino."

Feliz

Ettore, além de ter uma inteligência de chamar atenção, era extremamente carismático, diz Lawrence. "Ele era feliz, sorridente e isso passou para toda família. Aliás, acho que o jeitão meio diferente, irreverente, meio maluco dele veio lá do começo, da mãe dele, e passou isso para todo mundo." Contaram Lawrence e Sleibe que antes de morrer, a mãe dele, muito doente, já de cama, teve vontade de comer peixe. "Meu avô pegou uma linha, um anzol e pescou um peixe lá na Cachoeira da Chave, eles moravam lá em Votorantim. Ele levou para a minha avó e ela comeu na hora, cru, direto do anzol." Outra passagem revela um Ettore com gênio de artista, intenso, de personalidade marcante: quando um dos filhos repetiu de ano na escola: ele foi e voltou a pé de Porto Feliz. Rindo, Lawrence comenta: "só pra passar a raiva! Uma vez, ele já tinha mais de 80 anos, subiu no telhado para arrumar alguma coisa. Ele me pedia para jogar um cabo de vassoura para ele. Mas eu tinha medo de jogar e machucá-lo e ele ficava bravo comigo porque eu não jogava. Lembrando agora, foi engraçado. Ele era uma figura."

Um dos quadros que estão na parede da casa de Sleibe é o "Samba de Morro", de 1949, e que ganhou o 1º Concurso de Pintura da Prefeitura de Sorocaba, além de prêmios no Rio de Janeiro, cidade onde a obra foi exposta, e São Paulo. Lawrence chama atenção para a modernidade da tela, que pelos traços lembram Cândido Portinari. "Sombra, luminosidade, céu perfeito, tudo isso ele buscava. Mas ele era multifacetado em seu estilo." Como uma surpresa saborosa, a única filha mulher de Ettore revela que a mulata do quadro é ela. "Ele me colocava de modelo. Aquela mulher que está abaixada com a cesta no Elevação de Sorocaba à Vila também era eu. Fiquei umas duas horas parada para ele olhar a posição e fazer o quadro. E ai se me mexesse! Ela me matava", ri Sleibe.

No acervo dessa parte da família também estão dois quadros de um homem chamado João de Souza, um ex-presidiário, que tem uma história significativa no sentido de mostrar os traços - do desenho e da personalidade - de Ettore. O primeiro quadro de João de Souza foi feito em bico de pena, com traços mais rústicos, como interpreta Lawrence. "Ele achou que foi muito duro com um homem septuagenário, acabou se arrependendo de retratá-lo dessa forma e resolveu então fazer o mesmo quadro, só que com pincel e tintas, colorido." É na casa de Sleibe também que está outro dos quadros que ele mais gostava por ter um céu que ele considerava perfeito, do quadro chamado "Maria". "Engraçado que na verdade não é o céu que mais se aproxima do real, mas era o que ele mais gostava", comenta o neto de Ettore.

Completa a coleção o auto-retrato de Ettore, posicionado ao do quadro de sua esposa, a italiana Iria. Os bustos do casal em bronze também dividem espaço na casa com os quadros que ficam expostos. Como o escritório de Lawrence é na própria residência, não é raro que as pessoas entrem e fiquem admiradas em encontrar aquele acervo.

Cruzeiro do Sul tem trabalho de 1981 em seu acervo

  Reprodução / Pedro Negrão


Spencer Marangoni, 67 anos, filho mais novo de Ettore, mora em São José dos Campos e, como toda família, abriga em sua casa muitos quadros e esculturas de seu pai. "Ele era apegado às suas obras e não as vendia. Quando morreu dividimos entre os três filhos o que era dele." Uma das obras que Spencer tem em sua casa é uma escultura em gesso que Ettore não teve tempo de banhar de bronze. Por telefone, Spencer informa que a escultura, de um bandeirante e um muar, tem "dois palmos de comprimento e seis palmos de altura" e revela que pretende doar essa significativa escultura ao jornal Cruzeiro do Sul. "Sei que existe aí no jornal um quadro de meu pai", diz ele referindo-se a um quadro de 1981 que mostra a Ponte Francisco Delosso, com os prédios da região central ao fundo. "Acredito que a sede do jornal seja um espaço interessante para ser ter mais obra dele. Só falta encontrar quem queira restaurar o gesso porque depois de algumas mudanças, a obra, muito frágil por ainda ser de gesso, sofreu alguns danos, bem de leve, mas que precisam ser restaurados."

Um olhar para os homens comuns

Notícia publicada na edição de 15/04/2012 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 003 do caderno C -

 Algumas das telas de Ettore Marangoni do Museu Histórico Sorocabano ficam próximas às janelas do antigo casarão, estando expostas à ação do tempo e do sol durante alguns momentos do dia. É possível perceber que a obra "Elevação de Sorocaba à Vila" apresenta alguns danos em sua pintura - Por: REPRODUÇÃO: EMÍDIO MARQUES
O Museu Histórico Sorocabano conta com sete telas do artista

Ettore Marangoni era amigo pessoal do historiador Aluísio de Almeida, o Monsenhor Castanho (na Casa Aluísio de Almeida também estão quadros do artista) e foi sob orientação do próprio historiador que o pintor fez a obra que é considerada uma das mais importantes - "Elevação de Sorocaba à Vila", tela de 1951, popularmente chamada de "Fundação de Sorocaba", exposta no Museu Histórico Sorocabano. A cena retrata o bandeirante Baltazar Fernandes à frente do Mosteiro de São Bento no ano de 1661. "Ettore foi mentor de Aluísio e essa parceira foi uma das mais importantes para que o pintor conseguisse reproduzir as épocas passadas retratadas em seus quadros", comenta o historiador José Rubens Incao, que confessa não ter se aproximado de Ettore, quando o viu na casa de Aluísio de Almeida, por vergonha e timidez típica de juventude.

"Elevação de Sorocaba à Vila" é uma das sete telas do artista que estão expostas no Museu Histórico Sorocabano. As demais retratam a passagem dos muares por Sorocaba, partidas de bandeirantes, a catequese indígena e a primeira missa celebrada na cidade, na Capela Nossa Senhora da Ponte, no Mosteiro de São Bento. Para Incao, as obras de Ettore têm uma característica interessante de colocar o cotidiano e a simplicidade. "Ele lança um olhar para os homens comuns que não têm dimensão de que são eles mesmos que constróem a história, que são os agentes transformadores." Além do trabalho primoroso do artista, observa o historiador, o fato de achar tempo para criar era o que tornava especial. "O ir além torna mágicas as pessoas. E Ettore era magistral."

Conservação

Algumas das telas de Ettore Marangoni do Museu Histórico Sorocabano ficam próximas às janelas do antigo casarão, estando expostas à ação do tempo e do sol durante alguns momentos do dia. É possível perceber que a obra "Elevação de Sorocaba à Vila" apresenta alguns danos em sua pintura.

A reportagem tentou, por mais de uma semana, conversar com a chefe de divisão de Patrimônio Histórico de Sorocaba para falar tanto sobre o valor histórico das obras quanto sobre a preservação das mesmas, mas Sônia Paes disse que não tinha disponibilidade para entrevista.

À Secretaria de Comunicação (Secom) da Prefeitura de Sorocaba, a reportagem enviou algumas perguntas, entre elas a que falava da conservação dos quadros. A reportagem perguntou sobre as peças próximas à janela: Há possibilidade de remanejá-las ou existe um projeto para que fiquem expostas em ambientes que garantam sua preservação? A obra Elevação de Sorocaba à Vila apresenta alguns desgastes na pintura. Existe um projeto de restauro para essa pintura?

Segundo a Secult, a obra "Elevação" foi restaurada. "Alguns problemas em peças ocorreram porque em determinadas épocas o artista passou a pintar sobre placas de eucatex, material altamente suscetível a variações de temperatura e umidade, o que acarreta expansão e retração que causam estresse da camada pictórica; o que pode apresentar fissuras. Não bastasse, há casos em que o artista colou obras antigas, com suporte em tela, em placas de eucatex. Apesar disso, as obras pertencentes ao acervo estão aclimatadas, não havendo necessidade de remoção para outro local", diz a resposta da Secretaria de Comunicação da Prefeitura.

A Secretaria da Cultura e Lazer (Secult) informou também que além das sete obras expostas no Museu Histórico, há outras no Palacete Scarpa e no Museu da Estrada de Ferro Sorocabana, totalizando 11 quadros.


Serviço


Museu Histórico Sorocabano
 No Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros
 Rua Teodoro Kaisel, 883
 Vila Hortência
 Aberto de terça a domingo, das 9h às 16h30
 Entrada gratuita

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