Andrea Alves
Em 2012, completam-se 20 anos da morte de Ettore Marangoni, que retratou em suas telas a história de Sorocaba e Votorantim; reportagem revisita sua obra sob o olhar de quem conviveu com o artista
Obra "Desmembramento", que pertence ao Museu Histórico Sorocabano
Fotoreprodução: Luiz Setti
Tropeirismo foi um dos grandes temas do artista; obra faz parte do acervo do Museu Histórico Sorocabano.
Fotoreprodução: Emidio Marques
Para Lawrence Marangoni, 36 anos, um dos 7 netos de Ettore, os trabalhos do avô são "pura arte"
Foto: Erick Pinheiro
"Precisei de dois meses para conseguir que ele me deixasse fotografá-lo no seu dia-a-dia", conta Werinton Kermes.
Foto: Werinton Kermes
Em estilos acadêmicos ou impressionistas, Ettore Marangoni pintou as histórias de Sorocaba e Votorantim. Esculpiu fatos e momentos bucólicos e os banhou de bronze. Também em manuscritos relatou a história de Votorantim e em ensaios de quadros e de gravuras revelou o quanto era dedicado ao estudo dos detalhes. Era um artista versátil, como mostram o incontável acervo da família e as obras expostas nas cidades que retratou com seus olhos sensíveis e atentos. Vinte anos depois de sua morte (ele faleceu em dezembro de 1992), a obra de Ettore merece ser revista sob o olhar de quem conviveu com o artista.
Para Lawrence Marangoni, 36 anos, um dos 7 netos de Ettore, os trabalhos do avô são "pura arte" porque agem como combustíveis para transformações positivas do conhecimentos sobre história, sobre pensamentos e sentimentos. "Não sei se existe um rótulo para um artista como meu avô e como outros tantos. Acho que artista é quem transforma alguma coisa em ouro, como aquele cozinheiro francês faz (Olivier Anquier). Ele é um artista. A arte está em tudo e acho que meu avô via isso. Tudo para ele podia ser arte, aquela arte que não tem a ver com dinheiro, mas que é essência, que é dom."
É justamente esse olhar sensível do artista que o fotógrafo Werinton Kermes recorda. Werinton conheceu Ettore no final dos anos 80 e numa das ocasiões em que trocaram muitas ideias, o fotógrafo comentou com o artista sobre uma das obras. A escultura que o fotógrafo observava era relativamente simples. "Era uma cobra subindo numa árvore para pegar um passarinho. E sobre ela o Ettore me disse que era uma escultura comum aos olhos de qualquer pessoa, mas aos olhos do artista não. E ele começou a tecer filosofias sobre a fragilidade do passarinho e muito mais. Aquilo me marcou e disse muito para mim sobre quem era o artista Ettore Marangoni."
Ettore Marangoni, que nasceu em 1907, na Suíça, se mudou com sua família para Votorantim quando tinha 8 anos. Com a morte dos pais, começou a trabalhar na Fábrica de Tecidos Votorantim, onde aprendeu a arte da gravura. Começou a pintar pequenos quadros aos 12 anos. Mais tarde, Ettore combinava suas criações como fotogravurista na Cia. Nacional de Estamparia (Cianê) com a arte que colocava nos quadros e nas esculturas. Foi consagrado como artista em 1951 com a obra "Elevação de Sorocaba à Vila", popularmente conhecida como "Fundação de Sorocaba", nascida de muitos estudos sobre as feições de Baltazar Fernandes. Antes disso, o artista já tinha participado de exposições e conquistados alguns prêmios por suas telas. Além da riqueza dos próprios traços e da sensibilidade em retratar momentos, Ettore é reconhecido por valorizar em suas cenas os escravos, as fundições de ferro, a fundação de Sorocaba e Votorantim, suas fábricas, a agricultura, a pecuária. A vida do homem simples do interior do Estado de São Paulo.
Retratista
Ettore Marangoni era um retratista da história, define Werinton Kermes. "Era múltiplo e sua própria vida se confundia com a história de Votorantim. É um dos mais importantes artistas, de grande contribuição para o conhecimento da formação das duas cidades (Sorocaba e Votorantim)." Para o fotógrafo, registrar Ettore durante suas criações foi mais que uma atividade marcante, foi uma conquista. "Ettore era um tanto fechado, tinha aquele jeitão europeu. Precisei de dois meses para conseguir que ele me deixasse fotografá-lo no seu dia-a-dia. Mas depois que ele permitiu o contato, sempre se mostrou muito amigo, muito feliz. Chegou a demonstrar que tinha uma certa mágoa porque acreditava que suas obra poderiam ter sido mais valorizadas pelo poder público como um acervo municipal." Privilegiado por compartilhar dos momentos de criação do artista, Kermes recorda o primeiro pensamento que veio com a possibilidade de conhecer o artista. "Justo aquele pintor responsável pela arte que vinha impressa numa sacola amarela e nas capas dos cadernos de uma livraria do centro da cidade". Como muitos que têm no mínimo 35 anos devem lembrar, a sacola e o caderno tinham o desenho do quadro "Elevação de Sorocaba à Vila".
"Acredito que poderia existir um Museu Ettore Marangoni, que serviria de ponto turístico para as cidades, como acontece na Espanha com museus do Salvador Dalí, mas a família teria que abrir mão do acervo", brinca Kermes. "Ettore é uma referência em história, em valores artísticos. Nossos bisnetos vão ouvir falar dele."




Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.