Notícia publicada na edição de 10/08/14 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 001 do caderno C
Maíra Fernandes
Maíra Fernandes
Guaraciaba Malhone assumiu seu primeiro papel no picadeiro aos cinco anos de idade. Ainda na ativa, artista recorda grandes momentos de sua carreira
Sessenta
e cinco dos 70 anos que Guaraciaba Malhone completa no próximo dia 20
foram dedicados à arte circense. Com talento e legado herdados dos
antepassados, a artista que dá nome a um dos mais importantes
circos-teatro do Brasil se mantém, até os dias de hoje, mergulhada nas
graças da vivência sob as lonas. Prestes a completar sete décadas, a
artista se divide entre ensaios para o espetáculo Cara suja, que
apresenta ao lado da velha-guarda do circo Guaraciaba no dia 30, no
Parque Vila Formosa, e à organização da esperada festa do próprio
aniversário, adiada por 20 anos. "Desde os 50 anos eu queria fazer essa
festa mas nunca deu certo, não tinha condições."
O tempo passado é emblemático e a espera, mesmo que não intencional, propícia para a comemoração. A festa, reforça ela, é para comemorar e reencontrar amigos de longa data. E foram nos últimos 20 anos que mudanças significativas marcaram a vida de Guaraciaba: a morte do marido Jaime Cavalcanti, a doença do pai, o artista Antônio Malhone (palhaço Pirolito) e a perda ainda dolorida dele, além da adaptação da vida fora das lonas. "Eu não conhecia outra vida que não fosse a do circo."
Mas foi também ao longo dessas duas décadas que a vida reservou outros acontecimentos. Por conta de uma correção histórica mesmo que tardia, viu e participou da retomada do circo-teatro na cidade e região e, em plena atividade, no início do ano, foi finalista de um dos principais reconhecimentos aos artistas paulistas, o Prêmio Governador do Estado para a Cultura 2013, por sua trajetória artística. "Não conseguiria me imaginar como finalista de um prêmio desse." Ela e os atores do circo-teatro Guaraciaba também foram homenageados este ano pelo bloco carnavalesco sorocabano Depois a gente se vira.
E são tantos momentos e pessoas para recordar e agradecer ao longo desses anos, que Guaraciaba só anda ressabiada com uma questão referente a uma homenagem que prestará aos presentes em sua própria festa: como sintetizar, em poucos minutos de um vídeo-vida, uma trajetória que reconstrói cenas importantes da história da evolução do circo no Brasil? "20 minutos de vídeo-vida é tempo para contar a história de vida de uma criança de um ano. E na festa eu quero reunir meus amigos, pessoas que trabalharam comigo. Só vai ter velho", brinca a matriarca da família Malhone, que pisou profissionalmente num palco aos cinco anos de idade.
DNA circense
Por conta das comemorações do aniversário, que acontece em uma segunda-feira por ser o dia de folga dos artistas circenses, Guaraciaba se pega retomando a tempos idos, que passam pelo circo onde nasceu, pelo Guaraciaba, e por muitas outras lonas e endereços em que escreveu sua história. Com uma memória de quem passou boa parte da vida lendo e decorando um sem números de peças, busca na herança dos avós, maternos e paternos, a resposta para seu DNA circense. "Com 15 dias de vida minha avó paterna me colocou no picadeiro pela primeira vez. Com cinco anos me acharam esperta e me colocaram em E o céu uniu dois corações. Não parei mais." O avô ensinou a menina a ser palhaço. Em dupla com Guiomar e Guaraciaba (a Cocada), se apresentava apenas nas matinês. Depois, aprendeu a fazer acrobacias, primeiro de um modo errado, que era para fazer graça para as crianças; depois, aos oito anos, a avó, Mara Rosa Malhone, ensinou as técnicas corretas. "Tudo a minha vó me ensinou. Desde abrir a cortina, entrar em falsete, cumprimentar...". A avô, recorda, assumiu o papel da mãe quando os pais se separaram. "Minha mãe não queria que eu trabalhasse, falava que era exploração, mas eu gostava. Fiquei com o meu pai, não queria ir embora do circo. Sempre fui muito ligada a minha avó paterna."
Nessa vivência, aprendeu os ofícios do circo, desde interpretar a fazer os doces que eram vendidos. Para ela, uma aprendizagem orgânica. "No circo, quando começamos a pegar certa idade, vamos aprendendo, automaticamente, essas coisas. Pois é tanto nossa referência de vida como nossa brincadeira. Crescemos vendo as pessoas fazendo essas coisas. E eles viram que eu tinha jeito, então comecei fazendo papéis pequenos. Meu pai falava que eu era muito focada, que parecia que estava entrando no Teatro Municipal", recorda sobre sua vivência como atriz de circo-teatro que traz, à lembrança, montagens como Retalho, o primeiro que considera como um trabalho importante, e Mestiça, no qual viveu a protagonista.
A trajetória
Guaraciaba deixou o circo batizado em sua homenagem para casar com, o também circense, Jaime Cavalcanti, em 1969. E por ter sido filha única, por parte do pai, muito "mimada", como mesmo frisa, e ter achado a experiência de não ter irmãos muito ruim, sentenciou ainda mocinha: "Eu tinha a família do Fedegoso (Hudi Rocha), como minha família, mas falava para a Edi (Ediméia Rocha), mulher dele: nunca que vou ter um filho só." E não teve. Aliás, teve três filhos, criou dois e perdeu dois, contabiliza.
Em 1971, voltaram ao circo e, em 1979, com ajuda do cunhado Vioblaque Cavalcante, inauguraram seu próprio circo, o Xicuta Show, em Campinas, na Vila Mimosa.
No década de 1980, quando os circos-teatro começam a sofrer com a concorrência dos circos de picadeiro e a falta de praças e público, Antônio Malhone vendeu o circo. Seguindo o fluxo, Guaraciaba e Jaime também venderam o Xicuta e foram para o chamado circo de picadeiro. "Tinha acabado o circo-teatro, já não era a mesma coisa. Muitos circos também pararam. As pessoas vaiavam, riam da gente, e perdemos o incentivo de trabalhar."
Musa inspiradora de um dos mais ativos circos-teatro, Guaraciaba e a família foram para um desses circos mais modernos. Enquanto as crianças aprendiam os números, ela e o marido ficavam na bilheteria. Quando lembra, Guaraciaba não esboça felicidade ao falar do momento que, após a morte de Jaime, em 1993, culminou com a saída de Guaraciaba, em 1997. "Deixei os meninos lá no circo e vim morar com meu pai que já estava aqui, em Votorantim. Ele ficou muito doente e, em 1999, faleceu. Foi o Natal mais triste da minha vida. Perdi meu amigo, meu tudo. Meu pai me fez muita falta. Foi a parte mais triste da minha vida", recorda a artista já sem segurar as lágrimas. "Meu pai ganhou muito dinheiro, mas gostava de jogar. Vendeu o circo e não tinha nada."
Longe do circo, Guaraciaba trabalhou de faxineira e babá em Votorantim, mas a situação ainda era crítica. Não demorou e o filho e ator circense, Alexandre Malhone (da Trupo Koskowiski), também abandonou o circo de picadeiro e foi morar com ela, seguido pelos outros filhos. "Falei, Alexandre, o que vamos fazer? E ele respondeu: vou fazer lona para a gente alugar. E começaram a mexer com tendas. Essa casa aqui onde estamos, tem o suor dos meus filhos", orgulha-se.
O começo dos anos 2000 marca a retomada da família, agora novamente unida, e um processo que teve início com o diretor da Biblioteca Infantil, José Rubens Incao, de resgate, valorização e retomada do circo-teatro Guaraciaba.
Guaraciaba fala do resgate do circo-teatro nos anos 2000 e conta do incentivo imprescindível do diretor da Biblioteca Infantil
Se, entre as décadas de 1980 e 1990, perguntassem a Guaraciaba Malhone se ela acreditava em um retorno às atividades circenses, a resposta seria não. Talvez, a mesma resposta da maioria de seus amigos e parceiros veteranos do circo, como Ediméia Rocha e Iracema Cavalcante, mas não de Hudi Rocha, que Guaraciaba não consegue chamar pelo nome próprio, mas apenas pelo artístico: Fedegoso. "O Fedegoso falava em volta, mas eu fiquei com muitas mágoas."
O desejo e a sentença de Hudi começou a fazer sentido quando, em 2002, Vioblaque Cavalcante, marido de Ediméia e cunhado de Guaraciaba, e José Rubens Incao (diretor da Biblioteca Infantil) começaram a resgatar as comédias escritas e apresentadas no circo-teatro. "O Zé Rubens assoprou uma brasa que estava quase apagada."
Aquelas histórias que faziam parte de lembranças, ora felizes, ora doloridas, acabaram se espalhando por Sorocaba, chegando a uma nova geração de artistas curiosos e afoitos pelo tradicional circo-teatro. Em 2005, o grupo Manto de teatro montou o clássico E o céu uniu dois corações, no ano seguinte, os próprios artistas do Guaraciaba entraram com um projeto de apresentação de circo-teatro na Lei de Incentivo à Cultura (Linc), e ganharam. A repercussão dos espetáculos, sempre com lotação impressionante, rompeu os limites da região e chegou aos ouvidos de pesquisadores e estudantes de diferentes pontos do Brasil. E das cinzas fez-se chamas novamente. "Foi maravilhoso, renascemos de novo. Sinto por ter parado de fazer o circo-teatro, mas não foi culpa nossa", conta Guaraciaba.
"Lembro que o Fedegoso estava muito doente e, com o retorno dessas atividades, ele renovou uns 10 anos. Fez até roupas novas para o espetáculo", recorda, sobre os efeitos do retorno às atividades e o reconhecimento do trabalho passado por gerações.
Além dos prêmios e homenagens, o circo se mantém na ativa através de leis de incentivo, eventos como a Semana do Circo, e convites para apresentações, como o do dia 30 em Sorocaba. E como de veteranos hoje há os quatro: Guaraciaba, Ediméia, Hudi e Iracema, dividem o palco com atores de diferentes gerações, que aproveitam para fazer um intercâmbio entre linguagens teatrais.
Voltar aos palcos depois de passadas algumas décadas e se apresentar para um público que, em boa parte não está familiarizado com os textos específicos do circo-teatro, não foi problema para Guaraciaba. "Pensei: vou fazer o que eu sei fazer. Está no sangue, é o que gosto de fazer."
Mas, se tampouco acreditava em voltar atuar, ser içada a um status de referência na arte circense também não estava nos planos de Guaraciaba, que devota tal sucesso ao pai, que sempre foi firme com sua postura quanto ao não uso de palavrão e gestos obscenos nos espetáculos, cujo foco era uma atividade familiar. "O nosso nome passou a ser conhecido, as pessoas nos procuravam. Meu pai plantou as sementes e quem colhe os frutos sou eu. Isso é reconhecimento de uma vida, e meu pai contribuiu para eu chegar aos 70 anos com toda essa pompa", comemora Guaraciaba, que quase chegou a ter outro nome, e cita como exemplo Vitória, "mas acharam Guaraciaba mais bonito".
O tempo passado é emblemático e a espera, mesmo que não intencional, propícia para a comemoração. A festa, reforça ela, é para comemorar e reencontrar amigos de longa data. E foram nos últimos 20 anos que mudanças significativas marcaram a vida de Guaraciaba: a morte do marido Jaime Cavalcanti, a doença do pai, o artista Antônio Malhone (palhaço Pirolito) e a perda ainda dolorida dele, além da adaptação da vida fora das lonas. "Eu não conhecia outra vida que não fosse a do circo."
Mas foi também ao longo dessas duas décadas que a vida reservou outros acontecimentos. Por conta de uma correção histórica mesmo que tardia, viu e participou da retomada do circo-teatro na cidade e região e, em plena atividade, no início do ano, foi finalista de um dos principais reconhecimentos aos artistas paulistas, o Prêmio Governador do Estado para a Cultura 2013, por sua trajetória artística. "Não conseguiria me imaginar como finalista de um prêmio desse." Ela e os atores do circo-teatro Guaraciaba também foram homenageados este ano pelo bloco carnavalesco sorocabano Depois a gente se vira.
E são tantos momentos e pessoas para recordar e agradecer ao longo desses anos, que Guaraciaba só anda ressabiada com uma questão referente a uma homenagem que prestará aos presentes em sua própria festa: como sintetizar, em poucos minutos de um vídeo-vida, uma trajetória que reconstrói cenas importantes da história da evolução do circo no Brasil? "20 minutos de vídeo-vida é tempo para contar a história de vida de uma criança de um ano. E na festa eu quero reunir meus amigos, pessoas que trabalharam comigo. Só vai ter velho", brinca a matriarca da família Malhone, que pisou profissionalmente num palco aos cinco anos de idade.
DNA circense
Por conta das comemorações do aniversário, que acontece em uma segunda-feira por ser o dia de folga dos artistas circenses, Guaraciaba se pega retomando a tempos idos, que passam pelo circo onde nasceu, pelo Guaraciaba, e por muitas outras lonas e endereços em que escreveu sua história. Com uma memória de quem passou boa parte da vida lendo e decorando um sem números de peças, busca na herança dos avós, maternos e paternos, a resposta para seu DNA circense. "Com 15 dias de vida minha avó paterna me colocou no picadeiro pela primeira vez. Com cinco anos me acharam esperta e me colocaram em E o céu uniu dois corações. Não parei mais." O avô ensinou a menina a ser palhaço. Em dupla com Guiomar e Guaraciaba (a Cocada), se apresentava apenas nas matinês. Depois, aprendeu a fazer acrobacias, primeiro de um modo errado, que era para fazer graça para as crianças; depois, aos oito anos, a avó, Mara Rosa Malhone, ensinou as técnicas corretas. "Tudo a minha vó me ensinou. Desde abrir a cortina, entrar em falsete, cumprimentar...". A avô, recorda, assumiu o papel da mãe quando os pais se separaram. "Minha mãe não queria que eu trabalhasse, falava que era exploração, mas eu gostava. Fiquei com o meu pai, não queria ir embora do circo. Sempre fui muito ligada a minha avó paterna."
Nessa vivência, aprendeu os ofícios do circo, desde interpretar a fazer os doces que eram vendidos. Para ela, uma aprendizagem orgânica. "No circo, quando começamos a pegar certa idade, vamos aprendendo, automaticamente, essas coisas. Pois é tanto nossa referência de vida como nossa brincadeira. Crescemos vendo as pessoas fazendo essas coisas. E eles viram que eu tinha jeito, então comecei fazendo papéis pequenos. Meu pai falava que eu era muito focada, que parecia que estava entrando no Teatro Municipal", recorda sobre sua vivência como atriz de circo-teatro que traz, à lembrança, montagens como Retalho, o primeiro que considera como um trabalho importante, e Mestiça, no qual viveu a protagonista.
A trajetória
Guaraciaba deixou o circo batizado em sua homenagem para casar com, o também circense, Jaime Cavalcanti, em 1969. E por ter sido filha única, por parte do pai, muito "mimada", como mesmo frisa, e ter achado a experiência de não ter irmãos muito ruim, sentenciou ainda mocinha: "Eu tinha a família do Fedegoso (Hudi Rocha), como minha família, mas falava para a Edi (Ediméia Rocha), mulher dele: nunca que vou ter um filho só." E não teve. Aliás, teve três filhos, criou dois e perdeu dois, contabiliza.
Em 1971, voltaram ao circo e, em 1979, com ajuda do cunhado Vioblaque Cavalcante, inauguraram seu próprio circo, o Xicuta Show, em Campinas, na Vila Mimosa.
No década de 1980, quando os circos-teatro começam a sofrer com a concorrência dos circos de picadeiro e a falta de praças e público, Antônio Malhone vendeu o circo. Seguindo o fluxo, Guaraciaba e Jaime também venderam o Xicuta e foram para o chamado circo de picadeiro. "Tinha acabado o circo-teatro, já não era a mesma coisa. Muitos circos também pararam. As pessoas vaiavam, riam da gente, e perdemos o incentivo de trabalhar."
Musa inspiradora de um dos mais ativos circos-teatro, Guaraciaba e a família foram para um desses circos mais modernos. Enquanto as crianças aprendiam os números, ela e o marido ficavam na bilheteria. Quando lembra, Guaraciaba não esboça felicidade ao falar do momento que, após a morte de Jaime, em 1993, culminou com a saída de Guaraciaba, em 1997. "Deixei os meninos lá no circo e vim morar com meu pai que já estava aqui, em Votorantim. Ele ficou muito doente e, em 1999, faleceu. Foi o Natal mais triste da minha vida. Perdi meu amigo, meu tudo. Meu pai me fez muita falta. Foi a parte mais triste da minha vida", recorda a artista já sem segurar as lágrimas. "Meu pai ganhou muito dinheiro, mas gostava de jogar. Vendeu o circo e não tinha nada."
Longe do circo, Guaraciaba trabalhou de faxineira e babá em Votorantim, mas a situação ainda era crítica. Não demorou e o filho e ator circense, Alexandre Malhone (da Trupo Koskowiski), também abandonou o circo de picadeiro e foi morar com ela, seguido pelos outros filhos. "Falei, Alexandre, o que vamos fazer? E ele respondeu: vou fazer lona para a gente alugar. E começaram a mexer com tendas. Essa casa aqui onde estamos, tem o suor dos meus filhos", orgulha-se.
O começo dos anos 2000 marca a retomada da família, agora novamente unida, e um processo que teve início com o diretor da Biblioteca Infantil, José Rubens Incao, de resgate, valorização e retomada do circo-teatro Guaraciaba.
"O Zé Rubens assoprou uma brasa que estava quase apagada"
Guaraciaba fala do resgate do circo-teatro nos anos 2000 e conta do incentivo imprescindível do diretor da Biblioteca Infantil
Se, entre as décadas de 1980 e 1990, perguntassem a Guaraciaba Malhone se ela acreditava em um retorno às atividades circenses, a resposta seria não. Talvez, a mesma resposta da maioria de seus amigos e parceiros veteranos do circo, como Ediméia Rocha e Iracema Cavalcante, mas não de Hudi Rocha, que Guaraciaba não consegue chamar pelo nome próprio, mas apenas pelo artístico: Fedegoso. "O Fedegoso falava em volta, mas eu fiquei com muitas mágoas."
O desejo e a sentença de Hudi começou a fazer sentido quando, em 2002, Vioblaque Cavalcante, marido de Ediméia e cunhado de Guaraciaba, e José Rubens Incao (diretor da Biblioteca Infantil) começaram a resgatar as comédias escritas e apresentadas no circo-teatro. "O Zé Rubens assoprou uma brasa que estava quase apagada."
Aquelas histórias que faziam parte de lembranças, ora felizes, ora doloridas, acabaram se espalhando por Sorocaba, chegando a uma nova geração de artistas curiosos e afoitos pelo tradicional circo-teatro. Em 2005, o grupo Manto de teatro montou o clássico E o céu uniu dois corações, no ano seguinte, os próprios artistas do Guaraciaba entraram com um projeto de apresentação de circo-teatro na Lei de Incentivo à Cultura (Linc), e ganharam. A repercussão dos espetáculos, sempre com lotação impressionante, rompeu os limites da região e chegou aos ouvidos de pesquisadores e estudantes de diferentes pontos do Brasil. E das cinzas fez-se chamas novamente. "Foi maravilhoso, renascemos de novo. Sinto por ter parado de fazer o circo-teatro, mas não foi culpa nossa", conta Guaraciaba.
"Lembro que o Fedegoso estava muito doente e, com o retorno dessas atividades, ele renovou uns 10 anos. Fez até roupas novas para o espetáculo", recorda, sobre os efeitos do retorno às atividades e o reconhecimento do trabalho passado por gerações.
Além dos prêmios e homenagens, o circo se mantém na ativa através de leis de incentivo, eventos como a Semana do Circo, e convites para apresentações, como o do dia 30 em Sorocaba. E como de veteranos hoje há os quatro: Guaraciaba, Ediméia, Hudi e Iracema, dividem o palco com atores de diferentes gerações, que aproveitam para fazer um intercâmbio entre linguagens teatrais.
Voltar aos palcos depois de passadas algumas décadas e se apresentar para um público que, em boa parte não está familiarizado com os textos específicos do circo-teatro, não foi problema para Guaraciaba. "Pensei: vou fazer o que eu sei fazer. Está no sangue, é o que gosto de fazer."
Mas, se tampouco acreditava em voltar atuar, ser içada a um status de referência na arte circense também não estava nos planos de Guaraciaba, que devota tal sucesso ao pai, que sempre foi firme com sua postura quanto ao não uso de palavrão e gestos obscenos nos espetáculos, cujo foco era uma atividade familiar. "O nosso nome passou a ser conhecido, as pessoas nos procuravam. Meu pai plantou as sementes e quem colhe os frutos sou eu. Isso é reconhecimento de uma vida, e meu pai contribuiu para eu chegar aos 70 anos com toda essa pompa", comemora Guaraciaba, que quase chegou a ter outro nome, e cita como exemplo Vitória, "mas acharam Guaraciaba mais bonito".
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