terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Editorial: Tragédias de verão

Jornal Cruzeiro do Sul

A combinação de calor, férias escolares e disposição para a recreação é um convite à alegria de viver. Na contramão desse clima, os balanços das ocorrências atendidas pelo Corpo de Bombeiros nos fins de semana contam os mortos por afogamento em lagoas e represas de Sorocaba e região. Esta situação configura uma contabilidade trágica. A tristeza abate quem toma conhecimento dos casos e leva dor sem limite às famílias das vítimas.

Na maioria desses acidentes, os mortos são jovens. Eles têm a existência interrompida para sempre naquela fase em que começam a construir os sonhos de uma vida inteira, com prioridades para os estudos e para o início de carreiras profissionais que podem conduzir a um futuro de realizações. E tudo acaba num mergulho em águas turvas e profundas.
No último domingo, um desses jovens morreu na Cachoeira da Chave, em Votorantim. Ontem, numa lagoa do Parque Vitória Régia, em Sorocaba, seis amigos entraram na água sobre um colchão inflável. Testemunhas disseram que, após uma perfuração, o colchão esvaziou e todos caíram na água. Um dos rapazes, de 18 anos, não sabia nadar e afundou. Até o início da noite, a informação era de que o Corpo de Bombeiros ainda fazia buscas no local.

No fim de semana anterior, o saldo foi de cinco mortes em circunstâncias semelhantes. Em meio aos dramas, dois amigos morreram numa represa próxima à rodovia José Ermírio de Moraes, a Castelinho. Outros dois afogamentos ocorreram, respectivamente, também em Sorocaba e em Votorantim, e um terceiro em Itaberá, região de Itapeva.

Outra característica dessas tragédias é a de que elas são recorrentes, isto é, as histórias se repetem em todos os verões. Somados esses aspectos, não é preciso ser especialista em segurança aquática para concluir que muitos locais são impróprios para banhistas e outros não têm estrutura para oferecer esse tipo de recreação. As mortes comprovam que cuidados com a segurança estão sendo dispensados, o que transforma opções de lazer em brincadeiras de altíssimo risco.

A título de exemplo, cabe recordar que, em 2012, o uso de uma represa numa antiga pedreira em Salto de Pirapora levou o Grupo Votorantim, dono da propriedade, a interditar o local. A medida foi tomada após a morte de dois mergulhadores, em março daquele ano, o que mostra que lugares perigosos não podem ser abertos ao acesso das pessoas. Mapeamento de riscos e providências são mais do que necessários para evitar a repetição de tragédias anunciadas.

Diante da gravidade do problema, cabe perguntar: até quando o poder público vai fingir que não tem nada a ver com essas tragédias de verão? Mortes violentas nunca são isoladas de contextos geográficos e ambientais. Habitualmente as causas são associadas a múltiplos fatores, que compõem o cenário da ocorrência. É assim no trânsito, nos acidentes de trabalho, no âmbito da saúde pública, setores nos quais o poder público atua com campanhas, programas de investimentos e planos de governo.
Fotos recentes de centenas de banhistas na Cachoeira da Chave, publicadas na imprensa, mostram o quanto a água, no auge do verão, vai além do consumo humano e transforma-se em produto de necessidade popular também para o lazer e a recreação nos dias de forte calor.

Está mais do que na hora de o poder público (especialmente os municípios da Região Metropolitana de Sorocaba) estudar a possibilidade de oferecer à população estruturas de lazer com segurança e responsabilidade. E uma das alternativas é a criação de piscinas públicas com o objetivo de atender a parcela da população que, por razões de custo, não pode ter acesso a clubes particulares.
Investimentos em piscinas públicas já existem na capital de São Paulo. A iniciativa, embora não atenda toda a população numa metrópole de dimensões gigantescas, pelo menos contribui para evitar uma parte das mortes em lagoas e represas que, em vez de opções de lazer, são verdadeiras armadilhas.

O exemplo das piscinas públicas de São Paulo poderia servir de avaliação por parte dos municípios da Região Metropolitana de Sorocaba. E copiar bons exemplos não é demérito, é bom senso. Além disso, a responsabilidade pela promoção da segurança é um dever de todos. E é obrigação do poder público.

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