Jornal Cruzeiro do Sul
A combinação de calor, férias escolares e
disposição para a recreação é um convite à alegria de viver. Na
contramão desse clima, os balanços das ocorrências atendidas pelo Corpo
de Bombeiros nos fins de semana contam os mortos por afogamento em
lagoas e represas de Sorocaba e região. Esta situação configura uma
contabilidade trágica. A tristeza abate quem toma conhecimento dos casos
e leva dor sem limite às famílias das vítimas.
Na maioria desses acidentes, os mortos são jovens. Eles têm a existência
interrompida para sempre naquela fase em que começam a construir os
sonhos de uma vida inteira, com prioridades para os estudos e para o
início de carreiras profissionais que podem conduzir a um futuro de
realizações. E tudo acaba num mergulho em águas turvas e profundas.
No último domingo, um desses jovens morreu na Cachoeira da Chave, em
Votorantim. Ontem, numa lagoa do Parque Vitória Régia, em Sorocaba, seis
amigos entraram na água sobre um colchão inflável. Testemunhas disseram
que, após uma perfuração, o colchão esvaziou e todos caíram na água. Um
dos rapazes, de 18 anos, não sabia nadar e afundou. Até o início da
noite, a informação era de que o Corpo de Bombeiros ainda fazia buscas
no local.
No fim de semana anterior, o saldo foi de cinco mortes em circunstâncias
semelhantes. Em meio aos dramas, dois amigos morreram numa represa
próxima à rodovia José Ermírio de Moraes, a Castelinho. Outros dois
afogamentos ocorreram, respectivamente, também em Sorocaba e em
Votorantim, e um terceiro em Itaberá, região de Itapeva.
Outra característica dessas tragédias é a de que elas são recorrentes,
isto é, as histórias se repetem em todos os verões. Somados esses
aspectos, não é preciso ser especialista em segurança aquática para
concluir que muitos locais são impróprios para banhistas e outros não
têm estrutura para oferecer esse tipo de recreação. As mortes comprovam
que cuidados com a segurança estão sendo dispensados, o que transforma
opções de lazer em brincadeiras de altíssimo risco.
A título de exemplo, cabe recordar que, em 2012, o uso de uma represa
numa antiga pedreira em Salto de Pirapora levou o Grupo Votorantim, dono
da propriedade, a interditar o local. A medida foi tomada após a morte
de dois mergulhadores, em março daquele ano, o que mostra que lugares
perigosos não podem ser abertos ao acesso das pessoas. Mapeamento de
riscos e providências são mais do que necessários para evitar a
repetição de tragédias anunciadas.
Diante da gravidade do problema, cabe perguntar: até quando o poder
público vai fingir que não tem nada a ver com essas tragédias de verão?
Mortes violentas nunca são isoladas de contextos geográficos e
ambientais. Habitualmente as causas são associadas a múltiplos fatores,
que compõem o cenário da ocorrência. É assim no trânsito, nos acidentes
de trabalho, no âmbito da saúde pública, setores nos quais o poder
público atua com campanhas, programas de investimentos e planos de
governo.
Fotos recentes de centenas de banhistas na Cachoeira da Chave,
publicadas na imprensa, mostram o quanto a água, no auge do verão, vai
além do consumo humano e transforma-se em produto de necessidade popular
também para o lazer e a recreação nos dias de forte calor.
Está mais do que na hora de o poder público (especialmente os municípios
da Região Metropolitana de Sorocaba) estudar a possibilidade de
oferecer à população estruturas de lazer com segurança e
responsabilidade. E uma das alternativas é a criação de piscinas
públicas com o objetivo de atender a parcela da população que, por
razões de custo, não pode ter acesso a clubes particulares.
Investimentos em piscinas públicas já existem na capital de São Paulo. A
iniciativa, embora não atenda toda a população numa metrópole de
dimensões gigantescas, pelo menos contribui para evitar uma parte das
mortes em lagoas e represas que, em vez de opções de lazer, são
verdadeiras armadilhas.
O exemplo das piscinas públicas de São Paulo poderia servir de avaliação
por parte dos municípios da Região Metropolitana de Sorocaba. E copiar
bons exemplos não é demérito, é bom senso. Além disso, a
responsabilidade pela promoção da segurança é um dever de todos. E é
obrigação do poder público.
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