quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Pense, dance

Com conceitos emprestados da ciência e da economia, Coletivo O12, de Votorantim, luta para formar novas plateias, sem menosprezar a capacidade do público em embarcar na experiência do novo e da radicalidade. ‘Dança é estratégia adptativa da espécie’, filosofa Thiago Aliandre

 
Fabiano Alcântara
Agência BOM DIA


Thiago Alixandre, artista do coletivo O12, de Votorantim, é um pensador da cultura e atua como espécie de porta-voz do grupo, que este ano circulará com o espetáculo "Quando se Desprendem as Partes" prêmiado pelo prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna. A reportagem do BOM DIA esteve na apresentação mais recente deles em Sorocaba, no Sesi, no fim de dezembro, e trocou e-mails com Thiago.


Leia a seguir trechos da conversa com o dançarino, que postou no blog do coletivo (http://www.odoze.blogspot.com/) uma análise sobre tendências de comportamento e consumo em que afirma que “está absolutamente claro que a matéria prima mais valiosa, e que o futuro dependerá mais, será a criatividade

BOM DIA - Alguém que espere "beleza" na dança de vocês, certamente sairá frustrado do espetáculo. Crê que o público sorocabano e votorantinense estejam preparados para ver arte radical?

Thiago Alixandre - Sempre depende, para seguir mais profundamente com essa discussão deveríamos admitir um sentido de beleza, mas tentando generalizar e ser bem amplo, se o público espera um tipo de beleza que esteja pautada na estética clássica das técnicas de dança, se frustrará com certeza, mas não acredito que isso ocorra no nosso caso. A comunicação da imprensa nos apoia exatamente nesse sentido, pra todo mundo que acompanha os jornais, nossa divulgação, blog, site etc, percebe logo de cara pelas fotos de divulgação que não se trata de uma estética de dança clássica e sim de uma outra coisa. Acho que o público já vem mesmo por essa curiosidade, querendo ver o novo.



Sobre o público estar preparado ou não, é exatamente uma das nossas funções políticas enquanto artista, somos concientes de que trabalhamos numa arte inovadora, como o próprio nome diz dança contempororânea. Ou seja é de agora, algo atual, entendemos que o público precisa tomar contato com as novidades e isso vai habilitando o olhar dele. Estamos certos de que há pouco mais de cinco séculos, quando surgiu o balé classico, o público o estranhou, mas o contato foi delineando uma familiaridade e hoje todos sabem o que ele é. Ou seja, somos artistas com foco no futuro, sabemos que atuamos e somos a representação política e artística da transformação de nosso tempo.

Votorantinenses e sorocabamos não podem ser isolados da consciência dessa transformação, precisam acompanhar ou pelo menos ter o acesso e estar em contato com esse tipo de pensamento.



BOM DIA - Como a dança pode influir na sociedade?

Thiago Alixandre - A dança explora as possibilidades do corpo, no tempo e no espaço. Qualquer um de nós temos corpo, vive num tempo e ocupa um espaço. A dança trabalha apoiada nesses elementos universais e procura através de suas inúmeras linguagens ampliar o conhecimento desses elementos que são intrínsecos a todos nós. Essa trilogia, tempo, espaço e matéria é um padrão que se modifica a partir do momento que existe o movimento e a dança nesse sentido é a arte que trabalha mais fielmente as relações que o universo nos impõe. Ou seja, dança não é luxo cultural, é estratégia adptativa da espécie, é reflexo da nossa evolução, ela explora e transcende os limites do corpo. A dança contemporânea como a trabalhamos tem o intuito de provocar reflexões, suspender questões, fazer perguntas à plateia e produzir conhecimento.



BOM DIA - “Quando se Desprendem as Partes” é mais sobre sexo e relacionamentos ou sistemas vivos criando autonomia?

Thiago Alixandre - É sobre processos de conquista de autonomia em sistemas vivos, trabalhamos com a metáfora do desprendimento como norteadora central da pesquisa, e entendemos a partir de nossos estudos que algo só se desprende se este mesmo algo esteve junto, atado, grudado etc. Então é por isso que muitas vezes os corpos estão atados e se soltam, ou corpos que se prendem e por algum motivo se desprendem das situações que se encontram. A possível leitura de que o trabalho trata de questões ligadas ao sexo, pode se dar por conta de em vários momentos estarmos embolados, abraçados e nus, mas esse estar abraçado, embolado, agregado, é somente um prenúncio que desemboca no desprendimento, que pra gente é o canal maior e mais poderoso de conquista e prática de autonomia. Fica claro pra gente que para praticar a autonomia conquistada é necessário se desprender e romper com algumas situações e padrões.



BOM DIA - Quais são os grupos e coreógrafos que vocês mais gostam?

Thiago Alixandre - O Coletivo O12 se inspira mais em cientistas do que em grupos de dança. Nossa pesquisa sobre conquista e prática de autonomia se apoia muito no desenvolvimento téorico e científico desse assunto. Na verdade, a dança é o meio de comunicar nossas pesquisas e descobertas sobre nossos estudos. Mas claro sempre têm artistas maravilhosos que admiramos. O trabalho da coreógrafa alemã Pina Bausch, que morreu ano passado, para gente é uma grande referência. Aqui no Brasil gostamos bastante de uma companhia de Florianópolis chamada Cena 11 Cia de Dança, que desenvolve um trabalho sério e inteligente.


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